Demétrio Magnoli escreveu na Folha de São Paulo:

“Não ponho o pé na rua há semanas. Leio, aproveito meu pacote da Netflix, experimento receitas, até comecei a pintar. Exercito-me na esteira da sala. Peço tudo por aplicativo. Você, não confinado, sabota meus sacrifícios, espalhando o vírus. Devo qualificá-lo como antissocial.”

Vamos analisar ponto a ponto esse primor de raciocínio. Vale a pena porque é uma amostra significativa do pensamento do beautiful people brasileiro.

“Não ponho o pé na rua há semanas” – É sinal que Magnoli tem grana, muita grana, bem ao contrário do povo que tem que trabalhar de dia para comer à noite.

“Leio” – Num país de analfabetos, é mais um sinal do privilégio do colunista.

“Aproveito meu pacote da Netflix” – Pobre não tem Netflix. No máximo, Gatoflix.

“Experimento receitas” – O povo está sem comida.

“Até comecei a pintar” – Essa é a maior!

“Exercito-me na esteira da sala” – Pobre não tem esteira nem sala. Pobre se exercita no ônibus – contorcionismo, alongamento e ginástica.

“Peço tudo por aplicativo” – E como “tudo” chega até Magnoli? Teletransporte? Ou tem gente que tem de pôr o pé na rua para não faltar nada a ele?

“Você, não confinado, sabota meus sacrifícios” – Eis os sacrifícios de Magnoli: ficar em casa, ler, ver TV, comer, pintar e fazer exercício. E o motoboy não confinado que entrega comida também é sabotador? O raciocínio do jornalista carece de lógica.

“(…) espalhando o vírus” – A gripe aviária é espalhada pelas aves migratórias. Vamos quarentená-las também?

“Devo qualificá-lo como antissocial” – E eu devo qualificar Magnoli como legítimo representante do estamento burocrático, o típico ricaço ocioso que não tem o mínimo de caridade para com o povo pobre.

Isso sim é ser antissocial.

Com informações do Jornal da Cidade Online.

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