Reprodução da carta de Antonio Martins de Sant’Anna Primo a seu filho, Geraldo Martins Santana, cabo da FEB. A carta, de 28 de outubro de 1944, jamais chegou ao cabo, morto no dia 9 de novembro por estilhaços de morteiro. Antonio e esposa deram à Pátria um filho, e, à Igreja, três padres e duas freiras.

*

Montes Claros, 28 de outubro de 1944.

Querido filho Geraldo:

Saudades…

Recebi do Quartel General do Rio de Janeiro, comunicação que fostes incorporado à Força Expedicionária Brasileira.

Não foi para mim nenhuma surpresa, porque o soldado está sempre sob as ordens dos seus superiores e deve acatar essas ordens com todo o respeito.

Fostes incorporado, porque era necessário que a Pátria insultada, respondesse a agressão dos corsários Nazistas que agiram debaixo de espesso nevoeiro, matando os nossos irmãos.

Aqui, em casa, todos receberam com imenso orgulho essa notícia. Filho, jamais surja em teu cérebro o pensamento de um homem covarde. Se firme no cumprimento do dever, principalmente quando a nossa Pátria foi traiçoeiramente atacada pelos vilões de além-mar.

Não importa que o intenso inverno dificulte a nossa marcha ou o sol abrasador faça demorar o avanço, o certo é que precisamos chegar até o fim do nosso itinerário ombro a ombro com as FORÇAS ALIADAS.

Ainda me recordo daquela bela poesia que diz em uma das suas estrofes:

Para a frente que importa a invernada

Temporal, inclemencia de sóis

Quem for fraco, que fique na estrada,

Que a vanguarda é o lugar dos heróis.

Pedimos a Deus para conservar a tua pessoa ilesa das balas assassinas dos Nazistas, porém, se for do agrado do Altíssimo que o teu corpo tombe no campo de batalha, para que muitos outros viva, seja feita a vontade de Deus

O ataque deve ser repelido embora sucumba alguns dos nossos. Que papel faríamos se permanecessemos de mãos cruzadas quando o inimigo comum tentou ultrajar a nossa soberania?

Seremos porventura alguma estátua onde o sangue não circula?

É legal trair a nossa tradição?

Não, isto não.

Dos túmulos de Caxias, do Te. Antonio João, de Camisão e outros mais ouviríamos o grito da dor do insultando dizendo-nos:

Irmãos, hoje mais que nunca, o Brasil precisa vingar os seus filhos.

Levai em resposta à agressão a esses Nazistas o brilho de uma baioneta empunhada para que os nossos sejam vingados.

E, assim, acalmarão as ondas tempestuosas do mar furioso, e a bonança reinará para todos os povos do mundo, que foram vítimas dos sutis ataques do “Eixo”.

Portanto, filho, não queiras ter maus pensamentos e jamais haja em tua pessoa o desespero.

Se também calmo. Porque todos nós temos que morrer um dia, logo, é desnecessário e mesmo indecente o desespero.

Muitos se enganam com a morte.

Ela não causa assombro a ninguém, porém enobrece a muitos. Se for preciso, morre em honra da Pátria e viverás eternamente. A tua lembrança ficará sempre conosco.

Um conselho: Conserve sempre a tua fé em Deus e jamais a deixe seduzir por outrem. Todos nós estamos indo bem graças a Deus.

O que sentimos são saudades tua, mas esperança de que em breve estarás aqui em Montes Claros conosco.

Terminando, pedimos a Deus por tua pessoa e pela honra e glória do Brasil e o cabal êxito da FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA.

Queira aceitar a benção de teu pai e os abraços que teus irmãos, tias, cunhados te mandam.

Teu pai,

ANTONIO MARTINS DE SANT’ANNA PRIMO

*

Com informações da Sala de Guerra – 1h54min.

***

Publicidade