O universo tem tantos centros quantos seres vivos. Cada um de nós é o centro de um universo, e o mundo se desfaz quando alguém lhe sussurra: “Você está preso!

Se é você quem está preso – então será que alguma coisa sobreviveu a esse terremoto?

Mas, com o cérebro obscurecido, incapazes de abarcar esse deslocamento do mundo, nem os mais refinados nem os mais simplórios dentre nós conseguem, nesse momento, com toda a experiência de vida, exprimir outra coisa que não:

– Eu?! Por qual motivo?! – uma pergunta repetida milhões e milhões de vezes, antes de nós, e que nunca obteve resposta.

A prisão é uma impressionante transição instantânea, uma transferência, uma transmutação de um estado para outro.

Pela longa e sinuosa rua de nossa vida, nós passamos, com rapidez e alegria, ou com vagar e tristeza, por cercas, cercas e mais cercas – cercas apodrecidas de madeira, muretas de terra batida, muros de tijolos, de concreto, de ferro. Nós não paramos para pensar: o que há por trás delas? Nós não tentamos espiar por detrás delas nem com os olhos nem com o pensamento – e é lá que ele começa – o país do Gulag, bem ali ao lado, a 2 metros de nós. E ainda não percebemos nessas cercas a quantidade inumerável de portinholas e de cancelas, solidamente encaixadas e bem camufladas. Todas, todas essas cancelas foram preparadas para nós! E então rapidamente uma delas é escancarada, fatídica, e quatros mãos brancas de homem nos agarram pelas pernas, pelos braços, pelo colarinho, pelo chapéus, pela orelha – arrastam-nos como se fôssemos um saco, e a cancela fica atrás de nós, a cancela que dá para a nossa vida passada é fechada para sempre.

Pronto. Você está preso!

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Trecho do livro Arquipélago Gulag – Um experimento de investigação artística 1918-1956, de Aleksandr Soljenítsyn, Editora Carambaia, 2019, 704 páginas, tradução de Lucas Simone com Irineu Franco Perpetuo, Francisco de Araújo, Odomiro Fonseca, Rafael Bonavina, prefácio de Natália Soljenítsyna, posfácio de Daniel Aarão Reis.

Edição primorosa, excelente tradução, leitura obrigatória.

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