Em seu livro Assassinato de Reputações – um crime de Estado, (Topbooks, 2013) Romeu Tuma Jr escreve nas páginas 55-57 do capítulo 4 – Lula: alcaguete e aprendiz do DOPS:

Nota de rodapé 3 – Lula ainda é, em 2013, amigo pessoal de quem primeiro lhe entregou esse papel de olheiro-informante do poder, ninguém menos do que Mario Garnero. Ex-vice presidente industrial da Volkswagen do Brasil e presidente da Anfavea, Mário Garnero, em seu livro Jogo Duro (Editora Best Seller, 1988, 3a edição, páginas 130 a 132), dedura o papel de Lula:

“Eu me vi obrigado, no final do ano passado, a enviar um bilhetinho pessoal a um velho conhecido, dos tempos das jornadas sindicais do ABC. Sentei e escrevi: Lula. Achei que tinha suficiente intimidade para chamá-lo assim, embora no envelope, dirigido ao Congresso Nacional, em Brasília, eu tenha endereçado solenemente: ‘À sua excelência, Luiz Inácio Lula da Silva’. Espero que o portador o tenha reconhecido por trás daquelas barbas. No bilhete, tentei recordar ao constituinte mais votado de São Paulo duas ou três coisas do passado, que dizem respeito ao mais ativo líder metalúrgico de São Bernardo: ele próprio, o Lula. Não sei como o nobre parlamentar, investido de novas preocupações, anda de memória. Não custa, portanto, lembrar-lhe. É uma preocupação justificável, pois o grande líder da esquerda brasileira costuma se esquecer, por exemplo, de que esteve recebendo lições de sindicalisno na Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, ali por 1972, 1973, como vim a saber lá, um dia. Na universidade americana, até hoje, todos se lembram de um certo Lula com enorme carinho.”

Em seu livro, Garnero bota Lula como um teleguiado montado pelos generais:

“Além dos fatos que passarei a narrar, sintome-me no direito de externar minha estranheza quanto a facilidade com que procedeu a ascensão irresistível de Lula, nos anos 70, época em que outros adversários do governo, às vezes muito mais inofensivos, foram tratados com impiedade. Lula, não – foi em frente, progrediu. Longe de mim querer acusá-lo de ser o cabo Anselmo do ABC, mesmo porque, ao contrário do que ocorre com o próprio Lula, eu só acuso com as devidas provas. Só me reservo o direito de achar estranho. Lembro-me do primeiro Lula, lá por 1976, sendo apresentado por seu patrão, Paulo Villares, ao Werner Jessen, da Mercedes-Bens, e, de repente, eis que aparece o tal Lula à frente da primeira greve que houve na indústria automobilística durante o regime militar, ele que até então era apenas o amigo do Paulo Villares, seu patrão. Recordo-me de a imprensa cobrir o Lula de elogio, estimulando-o, no momento em que a distensão apenas começava, e de um episódio que é capaz de deixar qualquer um, mesmo os desatentos, com o pé atrás”.

Garnero prossegue:

“Só isso pode explicar que, naquele mesmo ano, o governo Geisel tenha cassado o deputado Alencar Furtado, que falou uma ou outra besteira, e uns políticos inofensivos de Santos, e tenha poupado o Lula, que levantava a massa em São Bernardo. É provável que, no ABC, o governo quisesse experimentar, de fato, a distensão. Lula fez a sua parte. Mais tarde, ele chegou a ser preso, julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enfrentou ameaça de helicópteros do Exército voando rasantes sobre o Estádio de Vila Euclides, mas tenho um outro testemunho pessoal que demonstra tratamento respeitoso, eu diria quase especial, conferido pelo governo Geisel ao Lula – por governo Geisel eu entendo, particularmente, o general Golbery”.

Esclareço aqui a dúvida de Garnero. Sabia, sim, e realmente, fez sua parte. Aliás, meu irmão Rogério, que estudou medicina na Universidade Johns Hopkins em Baltimore, no estado de Maryland, EUA, já havia confirmado ao Tumão sobre a presença de um jovem sindicalista brasileiro por lá no início dos anos 1970. Outra dúvida que pairou no ar, por um bom tempo.

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