Tradução do artigo Redeeming the time, de Robert Royal, publicado no site The Catholic Thing em 6 de abril de 2020. Copyright 2020. Todos os direitos reservados. Traduzido e publicado com permissão.

Relembramos e reencenamos, nesta semana, os mais importantes eventos de toda a história do mundo. O surto do Coronavírus alterou algumas das formas pelas quais podemos fazê-lo neste ano. Mas, como todas as coisas do mundo, a mudança é temporária, enquanto a Paixão de Cristo – independentemente de mudanças históricas de líderes, regimes, culturas e até mesmo do colapso de civilizações inteiras – é permanente. E a Paixão transforma todo o resto.

Sofrimento e dor generalizados são – certamente – coisas sérias. Especialmente sob a ampla perspectiva do que corretamente chamamos de Semana Santa. Pelo menos, assim é se reconhecemos de forma plena o que aconteceu durante aqueles dias.

Ultimamente, tem havido um estranho desvio no modo como os cristãos recordam e falam da Paixão, Crucifixão e Morte de Cristo. E não são apenas os teólogos dissidentes. Isso infectou até mesmo alguns cristãos – católicos e protestantes – que ainda têm fé suficiente para ir sentar-se nos bancos da igreja.

Temos ouvido repetidamente: Deus nos ama, Jesus nos acompanha – e nos conforta – em todos os nossos problemas e sofrimentos. Temos de estar cheios de alegria. Há muita coisa certa nisso – exceto quando se torna a única maneira de ver as coisas.

Somos católicos, e isso significa que compreendemos o todo. Sofrimento e morte são realidades duras; é natural que evitemos pensar nelas. Mas o Cristianismo, particularmente durante esta semana, nos força a ver que sofrimento e morte existem, e nos confronta com as questões fundamentais sobre a vida e o modo como Deus não apenas nos conforta, mas também como Ele nos redimiu.

Muito da teologia moderna tem diminuído o sentido redentor do sofrimento e da morte de Jesus – as dimensões verticais. Sob esse ponto de vista, Ele sofreu Sua Paixão de tal forma que passou por tudo como nós passaríamos – a dimensão horizontal. Nas entrelinhas, os teólogos da libertação e outros teólogos frequentemente enfatizam a dimensão política da história de Cristo e até mesmo sugerem que a Paixão foi apenas uma questão de injustiça, perpetrada por líderes seculares e religiosos.

É significativo que algumas traduções atuais, por exemplo, transformam os “dois ladrões” (lestai) crucifixados com Jesus em “revolucionários” (em dicionários comuns de grego, eles eram “assaltantes” ou até mesmo “piratas”). Assim, o bom ladrão e o mau ladrão, antes facilmente identificados por nós com a espiritualidade, se tornaram, por uma massagem acadêmica, figuras políticas. O Coronavírus fez essa estreita leitura da história cristã parecer superficial e impossível.

Para os materialistas modernos, e para os que entre nós foram infectados pelo vírus materialista, a flagelo atual não apresenta nenhum problema existencial. Para eles, o universo inteiro, mesmo antes do vírus, já havia sido classificado simplesmente como um fato físico brutal, às vezes belo, interessante na medida em que penetramos cada vez mais em seus segredos, mas sem sentido no fim das contas. Ele tritura a todos sem dó. O sentido da vida, portanto, só pode ser o sentido que nós criamos.

Ciência e tecnologia – grandes e valiosas atividades humanas sob outras circunstâncias – têm, então, de se tornar o salvador. E se, em meio a uma pandemia, eles não conseguem nem mesmo dizer com certeza como um vírus funciona e por que atinge umas pessoas e outras não, eles conseguirão no futuro. Fé, esperança e caridade consistem na crença, embora implausível, de que um dia teremos tudo sob nosso controle. A vida eterna, nesse mundo, pode até estar nas cartas.

Essa fantasia pode oferecer alguma consolação sobre o futuro para alguns, mas hoje nós vemos muitas pessoas inocentes e idosas lutando para respirar, como Jesus pendente na Cruz com seus pulmões cheios de líquido. Para eles, e para nós que os vemos, há apenas horror e medo de que nós mesmos nos sufoquemos da mesma forma devido a processos físicos sem significado.

Líderes cristãos, até mesmo da mais alta hierarquia, estão totalmente relutantes em falar dos “males naturais” – como esse vírus – como resultantes do Pecado Original. Como, durante décadas, não foram ensinadas as verdades básicas bíblicas até mesmo a muitos cristãos, provavelmente pouca gente entenderia se esses líderes o fizessem. Mas, no Gênesis, o mal e a morte – e mesmo os males naturais como as pragas – vieram do pecado. E, por isso, Cristo não é apenas nosso Consolador. A sua Morte e Ressurreição, ao reparar o que o pecado havia produzido – a separação de Deus e a discórdia com o resto da Criação – o que nós, por nós mesmos, não podíamos fazer, dão significado real ao mistério do mal.

Outras religiões têm o seu modo de lidar com o sofrimento e a dor. O hinduísmo parece entender como as coisas são. Por outro lado, há a reencarnação. Como celebremente escreveu Emerson em “Brahma“:

Se o matador acha que mata

E o morto acha que foi morto

É que não sabem do que se trata

Eu caminho, vou e volto de novo

O budismo considera o sofrimento e a morte, e o próprio mundo, como uma ilusão.

Para o Cristianismo, o mundo, que inclui os nossos sofrimentos e a nossa morte, é bastante real. Assim, São John Henry Newman:

se há um Deus, como há um Deus, a raça humana está envolvida em alguma terrível calamidade autóctone. Ela está em desacordo com os objetivos do seu Criador. Isso é um fato, um fato tão verdadeiro quanto sua existência, e assim a doutrina do que teologicamente é chamado de pecado original se torna para mim quase tão certa como a existência do mundo e a existência de Deus.

E continua: “E agora, supondo que a vontade abençoada e amorosa do Criador possa interferir nessa anárquica condição das coisas, que métodos, imaginemos, seriam necessária e naturalmente usados em Seu propósito de misericórdia? Como o mundo está em estado tão anormal, certamente não seria nenhuma surpresa para mim se a interposição fosse necessariamente igualmente extraordinária – o que é chamado de miraculoso.” (Apologia, capítulo 5)

O miraculoso inclui tanto a Crucifixão, quando Cristo nos disse que seu sangue seria derramado para “o perdão dos pecados”, como também os sacramentos, os atos concretos que nos comunicam a graça de Deus, e é por isso que sentimos tão agudamente a falta deles neste momento.

Este é o raciocínio cristão, um raciocínio realista, enraizado nas realidades que recordamos e de que participamos nesta semana. Face aos desafios atuais, possam as realidades da Páscoa crescer em nós com poder e força muito maiores do que a contagem dos corpos que veremos nos próximos dias.

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Robert Royal é editor chefe de The Catholic Thing e presidente do Faith & Reason Institute em Washington, D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century publicado pela Ignatius Press. O livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustain the West agora está disponível em brochura pela Encounter Books.

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