Não, não fui eu quem foi atropelado. Foi meu carro.

Numa tarde calma, eu dirigia calmamente por uma avenida calma tendo à minha frente um único carro – um VW Santana. Era uma ampla avenida de São Paulo, com duas pistas separadas por um canteiro central e três faixas de rolamento em cada pista. O sol brilhava sem ofuscar e a temperatura era agradável.

Dada a tranquilidade das circunstâncias, nada fazia prever o acidente.

É sempre assim. Os acidentes acontecem nas situações mais calmas. Em situações tensas, os sentidos entram em alerta e dificilmente acontecem acidentes.

O Santana, então, sinalizou uma conversão à esquerda, exatamente a manobra que eu tencionava fazer. Ele começou a fazer a conversão e eu seguia atrás dele. De repente, em meio à conversão, percebi pelo canto do olho – pois a minha atenção estava concentrada na avenida – que o Santana freara bruscamente.

Epa! Que freada é essa? Assim, do nada?

Freiei imediatamente, é lógico, e então, desviando o olhar da avenida e concentrando a atenção na situação à minha frente, percebi o motivo da freada. Um ciclista – um moleque de uns 16 anos de idade – vinha à toda velocidade na contramão e, para assustar o motorista do Santana,  havia jogado a bicicleta na direção do carro e, no último instante, numa guinada brusca, havia se desviado do carro. No calor do momento, pude perceber a malícia estampada no rosto zombeteiro do moleque, que sorria para o motorista sem perceber a minha presença.

Vi, então, no semblante do moleque, uma transformação dantesca. Numa fração de segundo, a sua expressão de zombaria passou para um esgar de profundo terror quando ele finalmente me viu. Ou melhor, viu o meu carro – uma tonelada de aço plantada à frente da sua frágil bicicleta. Naquele momento, meu carro era para o menino o que os especialistas em trânsito qualificam como “obstáculo inamovível”.

Plaft!

A bicileta bateu no meu carro e o moleque voou. Desci imediatamente para socorrer o infeliz. Até então, devido à rapidez do evento, eu não estava ainda totalmente consciente da má intenção do moleque. Só dei conta da situação quando o motorista do carro à minha frente desceu xingando o ciclista e este, com cara de quem deve, subiu imediatamente à bicicleta e sumiu apesar das minhas perguntas sobre seu estado de saúde e dos meus rogos para que ele fosse ao hospital comigo. Pelo ímpeto com que ele deu velocidade à bicileta, pude constatar que nem ele nem a magrela tinham sofrido nenhum dano grave.

De dentro do Santana vinham gargalhadas de um passageiro que nem fizera questão de descer. Ria como se aquilo fosse a coisa mais engraçada que ele já vira na vida. Ria do ciclista, ria do motorista. Talvez pensasse que a vida, realmente, pode ser pior que a ficção.

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