Trecho do livro Invenções da Idade Média – Óculos, livros, bancos, botões e outras inovações geniais, de Chiara Frugoni, publicado pela editora Zahar.

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Preâmbulo

O que devemos à Idade Média? Tento enumerar alguns itens: os óculos, o papel, a filigrana, o livro, a prensa com caracteres móveis, a universidade, os algarismos arábicos, o zero, a data de nascimento de Cristo, bancos, notários e montepios, a árvore genealógica, a escala e os nomes das notas musicais.

A Idade Média nos dá os botões, as cuecas e as calças; nos diverte com o baralho, o tarô, o xadrez e o Carnaval; nos adormece a dor com a anestesia; nos ilude com os amuletos – e o coral, que protege as crianças e nos defende dos raios, ajuda também a desfiar o rosário. Para a casa, trouxe o gato, os vidros nas janelas e a chaminé; nos fez sentar à mesa (os romanos comiam recostados) e comer com garfo a tão amada massa, mais precisamente o macarrão e o cabelinho-de-anjo, cuja farinha era incansavelmente triturada em moinhos de água e de vento. Soube explorar a força da água para movimentar lagares e serrarias, pisões para tecidos, moinhos para papel e para farinha. Descobriu uma outra força motriz extraordinária: o cavalo, que dotou de ferraduras, estribo e coelheira rígida, para que o animal pudesse puxar sem sufocar com o peso. Aliviou a lida humana com o carrinho de mão, e tornou mais seguro o caminho dos navegantes com a bússola e o timão. Nas batalhas, tremulavam as bandeiras com insígnias coloridas e soava o estrondo da pólvora disparada por fuzis e canhões. Mudou a nossa percepção do tempo nessa terra, com o relógio a escapamento e a introdução das horas de igual duração e independentes das estações; mudou nossa percepção do tempo também no além, fazendo emergir um terceiro reino, o Purgatório, que rompia com os destinos imutáveis da eternidade. Por fim, com o Papai Noel, fez sonharem as crianças.

Este livro não tem a pretensão de exaurir todas as invenções medievais, reencontrar todos os modos de dizer, provérbios e hábitos daquele passado que vive conosco dia após dia, assim como quem colhe flores na primavera não pretende esgotar o campo. Meu ramalhete é uma homenagem à Idade Média, aos vários avanços que introduziu e dos quais desfrutamos ainda hoje. Segui um fio narrativo que se apóia na beleza das imagens e dos textos medievais; espero que ele os leve a compartilhar, talvez com surpresa, a minha gratidão.

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