Nos tempos de Tibério, a notícia de mais uma nova seita nascida nos confins do Império seria igual a tantas outras esquisitices não fosse por um único detalhe – ao contrário de outras, essa seita ganhava força à medida que se perseguia os seus adeptos. Quanto mais se matava, mais surgiam seguidores fanáticos do judeu crucificado.

Os boatos falavam de um jovem carpinteiro desimportante, sentenciado à morte por intrigas da sua própria gente. Diziam que teria ressuscitado depois de três dias na cova. Até os soldados do exército romano espalhavam essas crendices. Um oficial presente na crucifixão teria sido a primeira testemunha da divindade do sentenciado. Os guardas encarregados de vigiar o túmulo teriam testemunhado a ressurreição do carpinteiro. Outros soldados, encarregados de prendê-lo, contavam boquiabertos como ele havia desbaratado um pelotão inteiro só com o poder da voz.

Quem mais se interessava por essas invencionices , entretanto, não eram os homens mas as mulheres.O morto-vivo pregava uma nova doutrina sobre o casamento na qual os noivos, ao casarem, já não seriam duas pessoas mas uma só. Cai quem quer. Por isso, o casamento devia durar para sempre – o sonho de toda mulher. Mais ainda: nos seus ensinamentos, dava tanta atenção às mulheres que a mãe dele chegou a ser chamada, por malabarismos mentais, de mãe de deus. Essa é a maior!

Pois esse homem fundou uma igreja e deixou na chefia um pescador desqualificado. Mais assombroso do que isso, foi o modo como ele foi escolhido. Em uma reunião de instrução com os mais íntimos, o carpinteiro teria caçoado do povo ignorante perguntado o que aquela gentalha falava dele. “Dizem que és um dos grandes do passado que voltou à vida.” O lunático, então, teria disparado:

– E vós, quem dizeis que eu sou?

Cessaram os risos e, em meio à inquietação, o voluntarioso pescador teria manifestado a divindade do chefe; como recompensa pelo puxa-saquismo, conquistou a primazia sobre o bando.

Incentivado por essa fantasia, o diminuto grupo de judeus espalhou a sua crendice Império afora e além dele. Em todas as relações cotidianas, em todos os trabalhos, por onde quer que andassem, sentiam necessidade de comunicar a novidade de um deus que se fizera homem por amor aos homens pecadores – como se algum deus pudesse se importar com as mazelas da humanidade.

Saíram perambulando e construíram templos, mosteiros, conventos, escolas, hospitais, laboratórios, indústrias, foguetes e traquitanas impensáveis que se sucedem numa profusão infindável. De suas hordas, surgiram nomes como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, Teresa de Ávila e Teresa de Calcutá, Pascal e Leibniz – chega a ser impraticável fazer uma lista dessa gentinha. Em todos os seus esforços e dores, os extremistas pareciam buscar a resposta para aquela pergunta feita à meia-voz em um tempo remoto:

– E vós…?

A crença em um deus feito homem construiu o Ocidente. Construiu também as caravelas a bordo das quais os portugas enfrentaram o mostrengo do fim do mar. Como não podia deixar de ser, esses celerados acabaram batendo aqui. Trouxeram na bagagem a devoção à mãe do deus-homem sob o título de Nossa Senhora das Sete Alegrias. Isso explica muita coisa nesse nosso povo que se acostumou a rir de tudo, até da própria desgraça.

Mas isso foi há muito tempo. Hoje, o Brasil perdeu a alegria e o Ocidente está praticamente livre dessa crença infantil. Agora, o que manda é a grana, e o aborto e as drogas garantem a diversão. A igreja do crucificado está caindo aos pedaços e ninguém mais liga para essa conversa de amor ao próximo – quem pode mais chora menos.

Nesse turbilhão de demônios, nos encontramos, eu e você, lutando por nossa lucidez.

E Cristo torna a aparecer e nos repete a pergunta inescapável feita aos seus amigos mais íntimos num tempo esquecido:

– E vós, quem dizeis que Eu sou?

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