Se eu comi dois frangos e você nenhum, a estatística diz que comemos, em média, um frango cada. Estou empachado e a sua barriga está roncando mas a estatística diz que está tudo bem. Este é apenas um exemplo da má interpretação e da manipulação da ciência estatística.

A mais nova campanha de segurança no trânsito da Prefeitura de São Paulo diz, quase no finalzinho, como quem não quer nada: 93% dos acidentes de trânsito são causados por homens. Assim, mesmo, ligeirinho como quem rouba, uma frase solta no ar, subrepticiamente, subliminarmente, uma patadinha leve, totalmente extemporênea.

Das duas, uma: ou o redator é muito ignorante ou muito malicioso.

Senão, vejamos: quase 100% dos motoristas de caminhão são homens, quase 100% dos motoristas de ônibus são homens, quase 100% dos motoristas de táxi são homens, quase 100% dos motoboys são homens, quase 100% dos motoristas de veículos de serviço (eletropaulo, comgás, vivo, net, encanadores, pintores, pedreiros etc.) são homens e, mesmo nos veículos de passeio, os homens são maioria e, mais ainda, dirigem muito mais horas do que as esposas.

Saber a porcentagem exata dos causadores de acidentes demandaria uma pesquisa quase impossível de ser feita. Teria que responder à pergunta: quantas horas um homem dirige até causar um acidente? E uma mulher? Ou, colocado de outra forma: do total de horas dirigidas, quantas são de homens e quantas são de mulheres?

Mas, por ignorância ou malícia, a propaganda ataca “o homem” – o macho patriarcal opressor a bordo dessa máquina (o automóvel) que é o símbolo da liberdade individual, essa liberdade odiada pelos revolucionários.

Muito melhor do que gastar fortunas com propagandas, seria a prefeitura usar esse dinheiro para tapar buraco na rua.

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