Hoje a fatídica frase de Nossa Senhora de Fátima completa cem anos. Por isso, nada melhor do que reler o relato do Padre J. de Marchi no livro Era uma Senhora mais brilhante do que o sol para relembrar os ensinamentos da Mãe de Deus.

*

Na verdade, a Virgem Santíssima voltara pela terceira vez sobre os braços da azinheira a falar com os seus três confidentes.

Diante da Visão Celestial, uma alegria inenarrável, uma paz imensa encheu o coração dos pequenos, da Lúcia especialmente, que, muda, quase não podia crer no que o seu olhar contemplava.

Com uma ternura infinita, como a duma mãe inclinada sobre o filhinho doente, a Virgem poisou o seu olhar magoado sobre a Lúcia, como a dizer-lhe: — Sou eu… e venho do Céu… No inferno não há tanta alvura… tanta luz… Sobretudo não há bondade, não há doçura… Só no Céu desabrocham estas flores!…

A Lúcia ficara extática a contemplar, a absorver… Foi a Jacinta a despertá-la daquele sonho, daquele enlevo, dizendo-lhe:

— Anda fala-Lhe que Nossa Senhora já está a falar.

Humildemente, como a pedir-Lhe perdão de ter duvidado d’Ela, a Lúcia pergunta mais uma vez:

— Vossemecê que me quer?

— Quero que voltem aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o terço todos os dias em honra de Nossa Senhora do Rosário para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá valer — responde a Virgem.

A mãe duvidava… o povo escarnecia… o Sr. Prior dizia que podia ser coisa ruim… era preciso aproveitar a ocasião:

— Queria pedir-Lhe para nos dizer quem é, e para fazer um milagre para que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.

— Continuem a vir aqui todos os meses. Em Outubro, direi quem sou e o que quero.

E farei um milagre que todos hão-de ver para acreditarem.

Contentíssima e sem perder tempo a Lúcia começa a apresentar à Virgem os pedidos que lhe foram entregues.

A Senhora, com maternal indulgência, responde que curará uns; outros, não.

Que quanto ao aleijadinho da Sra. Maria Carreira não o curaria nem o tiraria da sua pobreza, mas que rezasse todos os dias o terço em família (1).

— — —

(1) Se Nossa Senhora o não curou nem enriqueceu, deu-lhe meios de ganhar a vida. É ele o sacristão da Capelinha das Aparições.

— — —

Um dos recomendados era um enfermo da Atouguia que pedia para ir em breve para o Céu. A este, a resposta que a Senhora dava era:

— Que não tenha pressa; eu bem sei quando o hei-de ir buscar.

Eram ainda conversões: uma mulher da Fátima e os filhos, uma outra do Pedrógão, casos de embriaguez… curas etc.. Todos deviam rezar o terço — era a condição geral para que as graças fossem obtidas.

A fim de reanimar o fervor decaído da Lúcia, a Virgem recomenda novamente a necessidade do sacrifício e confia-lhes novo segredo. (1)

— — —

(1) É este o segredo que causará tanto sofrimento aos três videntes. Só depois da morte do Francisco (1919) e da Jacinta (1920) a Lúcia receberá do Céu permissão para revelar a 1a e a 2a parte do segredo que acima reproduzimos com as próprias palavras dos videntes.

Quanto à 3a parte só em 1960 nos será dado conhecer o que a Virgem confiou aos pastorinhos de Aljustrel. Encontra-se no poder do Sr. Bispo de Leiria, escrita pela mão própria da Lúcia em carta lacrada.

— Parecerá a alguém — dirá ela mais tarde que eu deveria há mais tempo ter revelado estas coisas porque então teriam tido dobrado valor. Assim seria se Deus tivesse querido apresentar-me ao mundo como profeta, mas tal não foi a Sua vontade. Doutra forma em vez de me mandar calar, ordem confirmada mais tarde pelos Seus representantes, ter-me-ia mandado falar. Penso que Nossa Senhora teria querido servir-Se de mim unicamente para lembrar ao Mundo a necessidade da fuga do pecado e de oferecer reparações por tantas ofensas a Deus com orações e penitências.

— — —

— Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes e em especial sempre que fizerdes algum sacrifício; Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.

“Ao dizer estas palavras — continua a Lúcia — abriu de novo as mãos como nos dois meses anteriores. O reflexo que elas expediam pareceu penetrar a terra e vimos como que um mar de fogo e mergulhados nesse fogo os demônios e as almas como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, — assim como o cair das faúlhas nos grandes incêndios — sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizavam e faziam estremecer de pavor.

Os demônios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa.”

Foi então que saiu um suspiro, quase um grito dos lábios da Lúcia que impressionou vivamente os que a rodeavam.

Ai, Nossa Senhora! — E o rosto, de expressão transtornada, torna-se quase cadavérico (1).

— — —

(1) Nisto a Lúcia  — conta o Sr. Marto  — tomou assim inspiração. A cara dela esbranquiçou e ouvimo-la gritar: — Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora!

— — —

Os pobres pequenos assustados, como que a pedir socorro, levantam a vista para Nossa Senhora que lhes diz com bondade e tristeza:

— Vistes o inferno para onde vãos as almas dos pobres pecadores. Para os salvar Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração.

Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz.

A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, continuará outra pior (2). Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo dos seus crimes por meio da guerra, da fome e da perseguição à Igreja e ao Santo Padre (3).

— — —

(2) É interessante notar que a Jacinta já em Lisboa repetia: “se os homens não se emendarem, Nossa Senhora enviará ao Mundo um castigo como não se viu igual, e, antes dos outros países, à Espanha”. A pequena falava também de grandes acontecimentos que se deviam realizar por volta de 1940. (Cartas da Madre Godinho de 19 a 30 de Novembro de 1937).

(3) Lúcia julgou reconhecer o sinal de Deus na extraordinária aurora boreal que iluminou o céu na noite de 24 para 25 de Janeiro de 1938. — Por isso, convencida de que a guerra mundial — horrível, horrível — estava para rebentar, fiz o possível para apressar a realização de tudo o que Nossa Senhora tinha comunicado.

Cedo, todavia, teve de se convencer de que ainda não tinha chegado a hora da Misericórdia. (cfr. apêndice).

— — —

Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados.

Se atenderem ao meu pedido, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições: os bons serão marterizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas: por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.

Em Portugal conservar-se-á sempre o Dogma da Fé.

Isto não o digais a ninguém. A Francisco, sim, podeis dizê-lo (4).

— — —

(4) Os acontecimentos apocalípticos que estamos presenciando que são senão a realização desta profecia?

— — —

De frente às coisas terríveis que viram e ouviram as crianças ficavam sem palavras, quase sem sentidos.

Uns instantes de silêncio e esta pergunta da Lúcia:

— Vossemecê não me quer mais nada?

— Não, hoje não te quero mais nada.

Foi então que se ouviu uma espécie de trovão como a indicar que a Aparição cessaria.

***

Anúncios