Tradução do artigo The Slandering of Cardinal Burke, de Robert Royal, publicado no site The Catholic Thing em 13 de fevereiro de 2017.

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Umas das figuras mais pitorescas no trajeto da March for Life deste ano foi um indivíduo um tanto quanto original e impetuoso – provavelmente um fundamentalista ou pentecostal – que carregava um grande cartaz anti-católico e gritava num megafone portátil. Só consegui ouvir um pouco do que ele falava – o mesmo de sempre do Papa ser o anti-Cristo e dos católicos “adorarem Maria como uma deusa”. Pobre homem. Mas dê a ele uma certa razão: sob a sua loucura, ele realmente acredita que as formas de liderança cristã e o conteúdo da fé são importantes. Ouvi quando ele disse a outro manifestante: “Isso é coisa séria, homem!”

Realmente.

Na sexta-feira, em Washington, vimos algo não muito sério do Washington Post: um tolo ataque malicioso ao Cardeal Burke sob a manchete “How Pope Francis Can Cleanse the Far-Right Rot from the Catholic Church” (Como o Papa Francisco Pode Limpar a Podridão da Extrema-Direita da Igreja Católica”). O texto foi escrito por uma jornalista, Emma-Kate Symons, com quase o mesmo senso de realidade e de contextualização da Igreja como o do manifestante com o megafone. Eis a frase inicial: “O Papa Francisco precisa tomar medidas mais enérgicas contra o americano mais influente em Roma: o Cardeal Raymond ‘Breitbart’ Burke”.

Breitbart realmente entrevistou Burke uma vez – sobre o Islã, nada mais. Agora, Breitbart virou o nome do meio do Cardeal Burke.

Pessoas incomodadas pelo Catolicismo ortodoxo sempre existiram e sempre exisitirão. Mas essa “jornalista” não estava gritando em uma esquina qualquer ou escrevendo em um blog de extrema esquerda mas no antes moderado Post. O jornal tem dado uma forte guinada para a esquerda desde que a Amazon de Jeff Bezos o comprou. Mas qualquer editor, independentemente da sua tendência ideológica, devia ter dado uma olhada nessa op-ed (NT: página de jornal dedicada a artigos assinados por comentaristas, ensaístas etc. sob os mais diversos pontos de vista) e saber que era bogagem. Pura bobagem.

Mas o Post não está sozinho nessa história de deixar a paixão política matar o melhor do profissionalismo. Antes, na semana passada, o New York Times publicou na primeira página uma “notícia” – na verdade, uma crítica destrutiva com base em uma fonte ruim – de Jason Horowitz quase na mesma linha: “Steve Bannon Carries Battle to Another Influential Hub: The Vatican” (Steve Bannon Leva a Luta a Outro Centro Influente: O Vaticano).

Toda essa loucura gira em torno de um encontro ocorrido em 2014 entre o Cardeal Burke e Steve Bannon, o briguento da Casa Branca. Em sua histeria contra o presidente Trump, a mídia adora retratar Bannon como algum tipo de soldado nazista. Não sou fã de Banon nem de Breitbart, o qual ele geriu. (Uma vez declinei um convite da rádio Breitbart para debater com Bannon sobre a crítica de católicos a Trump porque eu sabia que ele simplesmente iria me atacar. Ele prometeu que não o faria. Mas foi exatamente o que fez com Robbie George, a pessoa que foi no meu lugar.) A verdade ainda é a verdade. O modus operandi de Bannon é às vezes auto-sabotador, na minha opinião, mas a mídia, no que diz respeito a esse assunto, está simplesmente se auto-desacreditando com a tática McCartista contra ele e contra todo o gabinete de Trump.

Voltemos a Burke. A história do Post continua, indo do encontro de 2014 até a elaboração de uma narrativa verdadeiramente insana: a de que Burke faz parte de um movimento mundial anti-muçulmano, anti-mulher, pró-nacionalista, pró-tudo-que-não-presta que subiu ao poder com a vitória de The Donald e está sendo dirigido por Bannon. Mas como o nosso esperto amigo Phil Lawler observou, o encontro ocorreu em 2014, ou seja, quase dois anos antes de Trump iniciar a sua corrida à Casa Branca. E bem antes de qualquer um pensar que Bannon poderia trabalhar para Trump. Então, como exatamente aquela única reunião, anos atrás, marcou tanto Burke que agora Francisco precisa eliminar “a podridão da extrema direita da Igreja Católica”?

Bem, Bannon também participou de uma conferência em 2014 patrocinada pela Dignitatis Humanae Foundation em Roma. Burke está no quadro da fundação. Logo, o três vezes divorciado político e o vigoroso defensor da indissolubilidade do matrimônio precisam ser idênticos. Não?

E, não por acaso, a nossa intrépida escritora descobriu que outro Cardeal do quadro da Dignatis Humanae Foundation também assinou a dubia sobre Amoris laetitia. A conclusão, é claro, é que a oposição à Comunhão para os divorciados e recasados é igual à “podridão da extrema direita”.

Como muita coisa na mídia mainstream, há um fronteira imaginária entre os dois personagens aqui mostrados, como qualquer pessoa que realmente conheça algo sobre a situação deveria saber. Bannon, conforme dito, é um briguento – o mundo às vezes precisa do tipo certo de briguento. Burke, ao contrário, é o mais meigo dos homens – o mundo precisa deles também. Se você não sabe disso, não conhece Burke. Bannon tem falado sobre as ameaças do Islã e sobre as ameaças do marxismo cultural para o Ocidente, e como elas precisam ser combatidas politicamente. Burke também tem falado – como muitos de nós – mas, conforme se espera, por razões um pouco diferentes e com um tom bem diferente.

Burke há muito tem se interessado principalmente por assuntos doutrinais na Igreja e – não nos esqueçamos – servido como prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica. Assuntos intelectuais técnicos; não política partidária ou populista. Na verdade, Burke muitas vezes fala – algo que, pelo menos para mim, expressa a sua mais profunda paixão – sobre como a queda da educação católica durante meio século prejudicou a Igreja e obscureceu os ensinamentos a Ela confiados por Jesus para a nossa salvação. Pouca coisa ele tem dito que, sob qualquer sentido normal da palavra, possa ser chamada de política.

Mas una Bannon e Burke em culpa por associação e você tem um prato cheio para a extrema esquerda, tipo dois-coelhos-com-uma-cajadada-só. O Cardeal já estava em oposição a Francisco com a demissão e a renomeação do Grão Chanceler da Ordem de Malta. O incidente, também, foi confusão sobre confusão. Mas, por fim, o Papa Francisco agora apontou um delegado para Malta e o Patrono (Burke) agora parece sem pasta. A história do Post não ajudará em nada.

E então, é claro, há o caso de Burke e dos outros três Cardeais que publicaram a dubia sobre Amoris laetitia – questões não apenas a respeito de se, contradizendo a história católica, agora ela permite a Comunhão para os divorciados e recasados, mas também se ela alterou a própria teologia moral sobre consciência, normas de exceção, males intrínsecos e a própria teologia da Sagrada Eucaristia.

Você pode acreditar que Burke et al. estejam errados em tornar pública a dubia (antes, eles a haviam apresentado ao Papa privadamente). Ou você pode pensar que Burke tem sido tratado injustamente (assim como outros na Cúria) por ter sido demitido do cargo sem explicação. Mas você tem que estar louco para colocar um príncipe da Igreja de modos meigos no mesmo nível de tudo o que a mídia mainstream considera repugnante – e ainda pior – sobre a nossa nova administração.

Isso é só mais um sinal do quão fora dos eixos as coisas se tornaram na Igreja e no mundo.

Uma das categorias morais que desapareceu, juntamente com muitas outras coisas da cultura ocidental, é a difamação. É pior do que a mentira. É mentir para causar o mal. Procure-a. E, por favor, a reconheça quando a encontrar.

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Roberto Royal é editor do The Catholic Thing e presidente do Faith & Reason Institute em Washington, D.C. O seu mais recente livro, A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century foi publicado pela Ignatius Press. O livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West já está disponível em brochura no Encounter Books. No Brasil, teve traduzido o livro Os Mártires Católicos do Séxulo XX (esgotado).

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