Com relação ao tema deste livro, poderá o problema – pois constitui um problema – ser encarado de modo especificamente brasileiro. Assim, o triunfo ou o domínio do piano alemão majestoso, de cauda, com lanternas de prata, de sala-de-visita, da mesa patriarcal, elástica, fabricada na Alemanha para família numerosa – mesa servida por cadeiras amplas, sólidas, bem alemãs – no Brasil dos meados do século XIX, sobre seus competidores de outras procedências, teria aberto à cultura germânica outras áreas de influência sobre áreas de vida e de cultura brasileiras, além das funcionais: as simbólicas.. O piano alemão tornou-se, com efeito, em numerosas residências brasileiras daquela época, uma espécie de rei – de sujeito, portanto, além de objeto – de salas-de-visita, ou de salas-de-música. Símbolo de status social, senão sempre alto, médio, burguês. Símbolo de prestígio.

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Houve em Dom Pedro II esta contradição um tanto surpreendente: a de ter compreendido, desde os meados do século XIX, o valor que representava para o Brasil a presença alemã, por importar no acréscimo, à população brasileira, de europeus mais bíblicos, no sentido de melhor alfabetizados, que os latinos; de instrução superior à de quaisquer outros colonos de origem igualmente européia, podendo, assim, concorrer, mais do que esses outros colonos, para o desenvolvimento do Brasil através de novas técnicas, sobretudo agrárias, mas também através de perícias artesanais necessitadas igualmente pelo Brasil; e de ter desconfiado das indústrias que viessem acelerar aquele desenvolvimento, através de empresas capitalistas de grande porte: as idealizadas e até iniciadas pelo anglizado Mauá, ligado principalmente a capitais e técnicos ingleses, ao mesmo tempo que influenciado por idéias francesas de solidarismo nas empresas industriais. Mas ligado sobretudo a ingleses. Pode-se, retrospectivamente, aceitar que os dois tipos de desenvolvimento brasileiro teriam sido possíveis, no Brasil, desde os meados do século XIX, um completando o outro, contanto que regulados por um governo que contivesse excessos do que hoje se denomina poder econômico, da parte das empresas industriais-capitalistas; e com eles articulasse desenvolvimentos de técnica agrária iniciados e desenvolvidos por alemãse no extremo Sul do País.

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Gilberto Freyre: Nós e a Europa germânica: em torno de alguns aspectos das relações do Brasil com a cultura germânica no decorrer do século XIX. Grifo Edições/Instituto Nacional do livro, 1971.

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