Prazer em conhecê-lo. Sou o presidente dos Estados Unidos e você não precisa me dizer quem é. Sei que você é o Pelé, todo mundo sabe!

Ronald Reagan

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O livro Pelé, a Autobiografia (Sextante, 2006), é um livro que, antes de mais nada, chama a atenção por ser uma tradução de My Autobiography, publicado originariamente no Reino Unido.

Com linguagem direta e fluida, o livro começa contando a história de Celeste e Dondinho, pais de Pelé, e vai até o ano de 2006, data da publicação do livro. O relato pode ser lido de vários pontos de vista – do fã, do historiador, do sociólogo etc. – já que o Rei do Futebol é simplesmente a personalidade mais popular do planeta desde, pelo menos, a década de 1960.

Para o fã do esporte, ler o livro é ouvir da própria boca de Pelé toda a sorte de aventuras: do menino franzino e sua bola de futebol de meia, da estréia no time do Santos aos 15 anos de idade, do campeão pela Seleção Brasileira aos 17, da estrela da Copa de 1958, do autor do gol da vitória por 1 a 0 contra o País de Gales, a maior retranca da história da humanidade com dez jogadores atrás e um recuado. É também conhecer a opinião de Pelé sobre os mais variados assuntos em que se viu envolvido – a mesquinharia brasileira, os dramas familiares, as polêmicas (“o brasileiro não sabe votar”), o milésimo gol, o Pelé na terceira pessoa, religião, negócios, os advogados para quem tanto trabalha (lembra a maldição mexicana “Entre abogados te veas”) e tantos outros episódios hilariantes (como a expulsão do juiz que o expulsou).

Para o historiador, estudar a vida de Pelé é se ambientar no Brasil a partir dos anos 1940. Pelé nasceu em Minas Gerais, em Três Corações – cidade cujo nome, dizem, é devido aos corações de Jesus, Maria e José – e assim, desde o berço, o Catolicismo impregnou a sua alma. Viveu a maior parte da infância no interior do estado de São Paulo, em Bauru, vocábulo indígena, rodeado por caipiras, portugueses, libaneses, italianos, espanhóis e japoneses – a sua primeira namorada foi uma japonesinha (hoje, está casado com Marcia Aoki) -, pela estrada de ferro, pela pujança de uma das regiões economicamente mais importantes do Brasil. Foi para Santos, cidade do nosso principal porto, e, com a fama, influenciou, de uma forma ou de outra, a vida de todos os brasileiros. Correu o mundo e fez multidões de fãs em todo o planeta. Particularmente na explorada África, “senti que representava uma esperança para os africanos, como o negro que conseguira fazer sucesso no mundo”.

Para o sociólogo, estudar a vida de Pelé é, nada mais nada menos, do que estudar a vida do homem mais conhecido do mundo, com todas as implicações políticas e sociais que isso acarreta. Pelé conheceu personalidades do mundo todo – presidentes, ditadores, reis e rainhas, todos querendo aparecer ao lado dele. Ao sair do Santos, foi jogar no Cosmos, da Warner Communications, levado pela mão do globalista Henry Kissinger. Foi nomeado “Um Cidadão do Mundo” pela ONU e é “Embaixador da Boa Vontade” da UNICEF. Quando Saddam Hussein foi capturado, encontraram com ele, no buraco em que se escondia, uma metralhadora, dinheiro e um pacote de… Café Pelé!

No rico relato do Rei, me interessou particularmente o Cientificismo da Copa de 1958.

Era a época da Guerra Fria. A Rússia era louvada como a pátria da ciência. Em 1957, por exemplo, havia mandado para o espaço a cadela Laika. Kruschev já consolidara o seu poder na União Soviética e a balança parecia tender para o lado do materialismo histórico. O time russo praticava o futebol científico e certamente iria nos massacrar – logo nós, pobres vira-latas subnutridos do Terceiro Mundo, um povo ainda apegado a uma religião de escravos. Mas, como dizem os próprios jogadores de futebol, “o jogo só acaba quando o juiz apita”, “é onze pra cada lado”, “futebol se ganha em campo”e, no fim, todo mundo sabe, o placar de 2 a 0 foi magro para o baile imposto por Pelé, Garrincha, Didi e companhia ao time adversário. Na prática, uma derrota do cientificismo marxista ateu para a alegria do Cristianismo.

Outro episódio significativo foi a avaliação psicológica, da qual dependia a escalação. Pelé foi vetado: “O Pelé é obviamente infantil. Falta a ele o espírito de luta necessário.” Garrincha também foi barrado. Felizmente, Feola, o técnico, confiava mais no seus instintos do que nos conselhos dos especialistas e escalou os dois craques.

Por falar em Garrincha, Pelé cita um fato interessante: quando ambos jogaram juntos, a seleção brasileira nunca perdeu uma partida. Também, pudera, precisava de três ou quatro zagueiros para marcar cada um; tirando o goleiro, sobravam apenas dois jogadores adversários para tentar marcar gol no time brasileiro. Pelé inspirava tanto temor nos zagueiros que uma vez ele saiu de campo para amarrar a chuteira e quando percebeu o marcador estava parado atrás dele, também do lado de fora do campo. Pelé relata que Garrincha, quando começava a driblar, não largava mais a bola, fato que transformava os colegas em mero espectadores e os deixava enfurecidos; talvez por isso, quando o jogo estava fácil, ninguém passava a bola pra ele, fato que o deixava enfurecido.

Pelé, evidentemente, não faz análises históricas, políticas ou sociais; o seu objetivo é tão somente contar a sua história. Cabe aos estudiosos decifrar a razão pela qual o país do futebol deu também Pelés na alta cultura – Villa-Lobos, Manuel Bandeira, Gilberto Freyre, e tantos outros que não cito por falta de espaço – e entender a relação entre a gênese da nação brasileira em Guararapes, protagonizada por Nossa Senhora das Sete Alegrias, e a cultura – em sentido lato – brasileira, cujo espectro vai do amor ao futebol até as manifestações de alta cultura. A alegria, que implica necessariamente em uma abertura para a vida, é a nossa característica mais marcante, e Pelé bem observa que os estrangeiros se surpreendiam com o futebol brasileiro e o classificavam como um futebol alegre; não por acaso, Garrincha tinha o apelido de  “a alegria do povo”. Por isso, Pelé só podia mesmo ter nascido aqui. Sermos os melhores do mundo naquele que é o esporte universal por excelência nos torna possuidores de uma inigualável “inteligência corporal” – entre aspas porque inteligência, na verdade, só existe uma: a capacidade de apreender a verdade. A capacidade do povo brasileiro em apreender a verdade tem sido, nas últimas décadas, ferida de morte pelo movimento comunista, mas teima em renascer graças ao trabalho de pessoas como o professor Olavo de Carvalho, cujo vaticínio merece ser relembrado:

– Ainda vamos dar uma lição ao mundo; vamos mostrar a força do Brasil na esfera da inteligência.

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