Agora, que o senhor ouviu, perguntas faço. Por que foi que eu precisei de encontrar aquele Menino?

— Riobaldo Tatarana

Às vezes a gente reclama da vida e acha que está faltando alguma coisa para nos fazer felizes, talvez mais dinheiro, talvez mais experiência, talvez mais juventude, saúde, tempo… o ser humano é um eterno insatisfeito e, esgotadas as instâncias terrenas – família, patrão, governo – recorremos a Deus, dando bronca porque este mundo está muito errado em não reconhecer a nossa excelência e em não nos recompensar na justa medida. Gostaríamos de ter Deus na nossa mão feito um gênio da garrafa para satisfazer os nossos desejos e – ah! – aí, sim, seríamos felizes.

O que você faria se tivesse Deus na palma das suas mãos?

Pois domingo, eu passei por uma inusitada experiência.

Foi assim: fui assistir à Santa Missa perto de casa, às 11h30, uma missa rápida, acaba meio-dia e pouco. Não chegue atrasado senão você corre o risco de perder o Evangelho. Como a igreja lota, fico de pé, normamente no fundo mas nesse domingo ocupei uma posição intermediária dentro da igreja, na frente de uma coluna. Pois bem, lá estava eu, quando chegou o momento da comunhão e uma ministra se colocou bem perto de mim, no corredor, a cerca de um metro de distãncia. Eu estava esperando a fila encurtar para ir comungar quando uma hóstia escorregou e foi ao chão. A ministra, mais do que depressa, se abaixou, pegou a hóstia e a consumiu. Você sabe, a hóstia sempre desprende algumas migalhas e, em cada uma delas, está presente Deus. Logo entrei na fila, e fui o último a comungar. Imediatamente após receber a hóstia, me abaixei, e com a palma da mão esquerda, vasculhei o local exato onde havia caído a hóstia. Não percebi nenhuma partícula visível; com a palma da mão esquerda toquei algumas vezes o chão para que as invisíveis migalhas grudassem na minha mão. Durante a ação de graças, lidei com a estranha sensação de ter Deus na palma da mão.

Estamos acostumados à Missa diária, à presença de Deus nos sacrários das inúmeras igrejas de nossas cidades, à comunhão frequente, chega a ser banalizante, como a lenda do discípulo chinês que recebeu do mestre a incumbência de achar a pedra que transformava metal em ouro. Saiu o jovem pegando cada pedra que encontrasse e a esfregando na fivela metálica do cinto. Esfregou as primeiras pedras com expectativa; depois, foi desanimando da busca e por fim apanhava cada pedra num movimento monótono e repetitivo. Após anos de procura, desistiu e resolveu voltar para casa. Antes, porém, foi lavar a roupa para não se apresentar sujo ao mestre. Só então notou que a fivela, escurecida por anos de poeira, havia se transformado em ouro. Em algum momento, tivera nas mãos a pedra mágica, mas a rotina e a monotonia e o desamor haviam impedido que ele percebesse.

Quando acabou a Missa, fui buscar orientação com o padre e lavei as mãos na pia da sacristia.

Agora, me diga uma coisa: por que eu fiquei numa posição diferente da costumeira? Por que a ministra ficou bem ao meu lado? Por que tantas coisas aconteceram para eu ter Deus na palma da mão?

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