No inesquecível dia 22 de julho de 1978, Ceausescu e eu estávamos escondidos, de tocaia para caçar pelicanos em um canto remoto do Delta do Danúbio, onde nem mesmo um pássaro poderia nos ouvir.

“Quero que você dê ‘Radu’ [tálio radioativo] para Noel Bernard” Ceausescu sussurrou no meu ouvido. Noel Bernard era na época o diretor do programa romeno da Radio Free Europe (RFE), e por anos vinha enfurecendo Ceausescu com os seus comentários. “Você não precisa me relatar os resultados”, acrescentou. “Vou saber pelos jornais ocidentais e…” O fim da frase de Ceausescu foi apagada pelo rá-tá-tá metódico da submetralhadora. Ele atirou com cerimoniosa precisão, primeiramente na linha frontal dos pelicanos, depois na distância média e por fim nos filhotinhos atrás.

Durante 27 anos eu vivi com o pesadelo de que, mais cedo ou mais tarde, eu receberia uma ordem para matar alguém. Até aquela ordem de Ceausescu, eu tinha estado em segurança, pois as operações de neutralização estavam a cargo do chefe do DIE. Mas em março de 1978 eu fui designado chefe interino do DIE e não havia mais como eu escapar de me envolver nos assassinatos políticos, convertidos no principal instrumento de política externa de todo o bloco soviético.

Dois dias depois, Ceausescu me enviou para Bonn para entregar uma mensagem secreta para o chanceler Helmut Schimdt, e lá eu pedi asilo político nos Estados Unidos.

Ion Mihai Pacepa nasceu no dia 28 de outrubro de 1928 em Bucareste, Romênia. Em 1947 começou a estudar química industrial na Universidade Politécnica de Bucareste e em 1951 foi cooptado pela Securitate, o braço da KGB na Romênia. Ascendeu na hierarquia da burocracia e chegou ao posto de general e conselheiro do ditador Nicolae Ceausescu. Conheceu de perto líderes como Nikita Khrushchev, Raul Castro e Yuri Andropov e participou diretamente de operações soviéticas como a implantação da teologia da libertação e a criação do terrorismo islâmico. Algumas frases do general:

Infelizmente, eu testemunhei o nascimento do terrorismo anti-americano. Anos atrás ouvia o general Aleksandr Sakharovsky, chefe da espionagem estrangeira da União Soviética, pontificar que a nossa maior arma contra o nosso “principal inimigo” (os EUA) deveria ser, a partir de então, o terrorismo, pois as armas nucleares haviam tornado obsoleta a força militar convencional. Em 1969, Sakharovsky tranformou o sequestro de aviões – a arma escolhida para  o 11 de setembro – em terrorismo internacional.

O meu primeiro contato com os esforços da KGB de usar a religião para expandir mundialmente a influência do Kremlin ocorreu em 1959. “A religião é o ópio do povo” ouvi Nikita Khrushchev dizer, citando a famosa frase de Marx “então vamos dar ópio ao povo”. (…) Khrushchev chamou a nova religião inventada pela KGB de Teologia da Libertação. A sua inclinação por “libertação” havia sido herdada da KGB, que mais tarde criou a Organização para a Libertação da Palestina, o Exército Nacional de Libertação da Colômbia (ENL) e o Exército Nacional de Libertação da Bolívia. A Romênia era um país latino, e Khrushchev queria o nosso “parecer latino” sobre a sua nova guerra religiosa de “libertação”. Pediu também o envio de alguns dos nossos padres oficiais colaboradores ou disfarçados para a América Latina para ver como “nós” poderíamos tornar a sua nova Teologia da Libertação palatável naquela parte do mundo. Khrushchev contou com os nossos melhores esforços.

Eu me encontrei com Raul Castro muitas vezes, em Cuba e na Romênia. Ele era responsável pela coordenação do serviço de inteligência cubano (a Dirección General de Inteligencia – DGI) e, no início dos anos 1970, entrou no negócio de drogas juntamente com o departamento onde eu trabalhava (Departamentul de Informatii Externe – DIE).

No ano de 1974, Andropov admitiu para nós que, soubéssemos na época [da campanha contra o Papa] o que sabíamos naquele ano, jamais teríamos ido atrás do Papa Pio XII. Referia-se a informações recentemente liberadas mostrando que Hitler, longe de ser amigo de Pio XII, na verdade tramou contra ele.

Por sua importância, a deserção de Pacepa foi o mais duro golpe na inteligência soviética. Ceausescu ofereceu uma recompensa de 2 milhões de dólares (em 1978!) por sua cabeça, quantia à qual se somou mais um milhão de Muammar al-Gaddafi e mais um milhão de Yasser Arafat. Pacepa se tornou cidadão americano e trabalhou com agências de inteligência americanas contra o Bloco Oriental. A CIA elogiou a colaboração de Pacepa por ter proporcionado “uma contribuição importante e única para os Estados Unidos”. O general escreveu – e continua escrevendo – artigos e livros com destaque para Red Horizons: Chronicles of a Communist Spy Chief (tido por Ronald Reagan como a sua Bíblia para lidar com ditadores socialistas) e mais recentemente Disinformation: Former Spy Chief Reveals Secret Strategies for Undermining Freedom, Attacking Religion and Promoting Terrorism (em co-autoria com Ronald Rychlak).

Pacepa vive bem camuflado sob identidade secreta nos EUA como orgulhoso cidadão americano. Pela sua experiência no submundo da inteligência soviética, é uma das mais importantes vozes a ser ouvida nos dias de hoje quando a Rússia está, mais uma vez,no centro dos acontecimentos internacionais e quando o mundo se aproxima do centenário do milagre de Fátima.

Vida longa ao general!

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