Quem não quer ver um milagre?

Fátima, uma diminuta localidade do interior de Portugal, amanheceu repleta de gente ávida por ver o milagre anunciado por Nossa Senhora pela boca de três criancinhas durante meses. Na multidão, calculada em 70 mil pessoas, tinha de tudo: crentes, a maior parte, e descrentes cuja motivação era se vingar dos crentes; piadistas cujo objetivo seria se divertir com a decepção dos outros e curiosos em geral; pobres e ricos; jornalistas e fofoqueiros. Todos ensopados pela chuva que caíra a noite inteira.

No fim da manhã, as crianças foram para o local das aparições e, espremidas no meio do povaréu, Lúcia, Francisco e Jacinta eram as únicas pessoas que, na verdade, tinham plena certeza do milagre. Ao meio-dia, Lúcia ordenou:

– Fechem os guarda-chuvas que já vem Nossa Senhora.

De fato, embora ninguém pudesse ver a Virgem, os rostos dos videntes resplandeciam a glória de Deus e todos sabiam que o céu descia à terra.

Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para as suas casas.

Não ofendam mais a Nosso Senhor que já está muito ofendido!

“E a Senhora do Rosário despediu-se, pela última vez, dos seus três confidentes, abriu as mãos, fê-las refletir aos fulgores solares e, enquanto se elevava, a sua luz não deixava de se projetar no disco luminoso.

“A visão era mais brilhante que o sol!

“A lúcia, sem despegar o seu olhar da radiosa Aparição, grita para o povo:

– Lá vai ela! Lá vai ela! Lá vai ela! Olhem para o sol!

“Junto do astro-rei uma nova visão deslumbra as privilegiadas crianças.

“É São José com o Menino Jesus e Nossa Senhora – a Sagrada Família.

“São José, vestido de branco, emergia das nuvens deixando ver apenas a parte superior do tronco. O Menino no seu braço esquerdo, vestia de vermelho e via-se inteiramente. Nossa Senhora estava à direita do sol, de corpo inteiro, vestida de vermelho e com um manto azul que lhe cobria a cabeça e que caía solto.

“São José traça por três vezes, no ar azul, uma cruz, abençoando aquela multidão enorme ajoelhada na Cova lamacenta.

“Desvanecida esta aparição, outra lhe sucede. É Jesus Cristo, ao lado direito do sol, vestido de vermelho, e sua Mãe Santíssima com as características de Nossa Senhora das Dores, vestida de roxo, mas sem espada no peito.

“O Divino Redentor lança também a sua benção sobre o povo.

“Apagada esta Visão, parece-lhe ainda à Lúcia ver Nossa Senhora, agora com as características de Nossa Senhora do Carmo, deixando cair qualquer coisa da mão direita…

“E as Visões do Céu da Fátima extinguiram-se para sempre” (Padre João M. de Marchi, Era uma Senhora mais brilhante que o sol, 14a edição, 1993, Missões Consolata)

Enquanto as crianças tinham essas visões, o povo finalmente matava a curiosidade e, obediente ao brado de Lúcia (Olhem para o sol!), presenciava o maior milagre de todos os tempos. As nuvens se abriram e o sol podia ser olhado sem incomodar a vista; soltava raios multicoloridos tingindo tudo de cores diferentes – árvores, pessoas, chão e ar. Subitamente, o sol começou a dançar; parou de novo e recomeçou a dança; até sair do céu e vir para cima do povo. Pensando no fim do mundo, a multidão se atirou de joelhos e começou a gritar, a pedir perdão dos pecados, teve até confissão pública em altos brados, teve desmaio. Depois de dez minutos de espetáculo, o sol voltou ao normal e já não podia ser olhado. Só então a multidão reparou que as roupas encharcadas haviam secado.

Todos, finalmente, acreditaram nas crianças porque o milagre prometido tinha acontecido. O maior milagre de todos os tempos, um grande milagre.

Grande?

No dia 19 de agosto, Maria confidenciara que estava braba porque as autoridades haviam prendido as crianças. E dissera na ocasião:

No último mês, em outubro, farei um milagre para que todos creiam nas minhas aparições. Se não vos tivessem levado à aldeia [se não tivessem prendido as crianças] o milagre teria sido mais grandioso.

Fazer o sol dançar foi um milagre menor. Qual teria sido o “grandioso”?

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