Jogada no meio da praça, a mulher aguardava.

Medo e ódio dominavam o seu pensamento. Prestes a lapidá-la, a multidão aguardava a decisão do Rabi. Mais um instante e começaria a chuva de pedras que só terminaria com a morte. Sentia raiva da turba sanguinária, sentia raiva dos curiosos, sentia raiva do homem que a havia seduzido, sentia raiva daquele Rabi em cujas mãos repousava a sua vida, sentia raiva de Deus e, acima de tudo, sentia raiva de si mesma.

– A Lei manda apedrejá-la. Tu, o que dizes?

Havia sido manipulada e descartada pelos escribas e fariseus, para quem a sua vida não era nada, cuja cínica intenção era apenas armar um laço para pegar o Galileu – absolvê-la seria ir contra a Lei de Moisés, condená-la O deixaria mal perante o povo. Para isso, lançavam mão de uma lei em desuso – a lapidação em caso de adultério. Odiava aquele Rabi que tinha, agora, poder de morte sobre ela. Quem era Ele para conhecer as suas dificuldades e os seus desejos, a sua grandeza e a sua pequenez? Sentia raiva da curiosidade mórbida da multidão que, na falta do que fazer, se deliciava com a desgraça alheia. Sentia raiva de Deus e de si – por que caminhos tortuosos a vida a havia conduzido para aquele beco sem saída? Que escolhas insanas a haviam compelido para uma morte tão cruel e tão prematura? Onde estavam os sonhos de filhos e família, flores e felicidade um dia sonhados por uma menina?

O desespero da mulher adúltera se assemelha ao desespero da mulher que finalmente compreendeu a enormidade do erro do aborto. Não vêem saída para a situação. À semelhança da adúltera, a mulher que abortou foi, muitas vezes, induzida pelo namorado, pela família, pelas amigas, pela opinião dos outros, pela desvairada e cínica mentalidade do mundo moderno. Desamparadas e sozinhas, não conseguem enxergar saída para a enrascada em que se meteram.

A mulher aguardava. Os judeus aguardavam. Os curiosos aguardavam.

Mas o Rabi parecia não ter pressa – escrevia na areia.

Com os olhos injetados, cuspindo invectivas com os dentes cerrados, os judeus exigiram uma resposta – O que dizes?

Levantando-se muito alto, Ele desafiou com voz forte:

– Quem nunca pecou, atire a primeira pedra.

Epa! Aquilo mudava a situação. O Rabi tomara para Si a dor da mulher e os judeus passaram, num piscar de olhos, de atacantes a atacados, de perseguidores a perseguidos. Uma coisa era bater numa mulher indefesa; outra, bem diferente, era enfrentar Cristo cara a cara, o Homem que ressuscitava mortos e mandava nos ventos e tempestades, que lia as consciências e perdoava pecados. A situação exigia uma saída estratégica e a multidão começou a sair de fininho até restar, no meio da praça, só a mulher e Cristo.

A miséria e a Misericórdia.

A Misericórdia, a única solução para uma mulher que abortou.

A Misericórdia, que tudo vê e tudo pode perdoar.

A Misericórdia, o destino de todos as almas arrependidas e de todas as almas não batizadas.

A Misericórdia que um dia dirá à pecadora arrependida:

– Mulher, ninguém te condenou? Nem Eu te condeno…

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