Ai, ai… acho que nasci na época errada. Você às vezes não pensa assim?
Acho que a maior parte das pessoas, se tivesse vivido nos tempos de Cristo, gostaria de ver de perto os milagres: a água virando vinho, a multiplicação dos pães, a caminhada sobre a água, as ressurreições; outros, se coçam só de pensar em poder fazer altas perguntas para o Mestre, cara a cara, tirar as suas dúvidas mais profundas; outros, mais espirituais, gostariam de estar ao lado de Cristo nos seus piores momentos da Paixão.
Eu?
Piadista por nascimento e humorista por vocação, eu certamente gostaria de observar a linguagem corporal de Jesus nos seus abundantes momentos de bom humor. O bom humor, a alegria, as tiradas espirituosas eram – garanto! – presença constante na vida de Cristo – ou vocẽ acha que Ele arrastava multidões à base de carrancas? Acima de tudo, Ele sabia manejar com extrema perícia a fina ironia, aquela que pega o interlocutor no contrapé e consegue fazer com que ele – o interlocutor – ria de si mesmo. Os relatos evangélicos, entretanto, não dão muitas pistas sobre isso.
No Evangelho de ontem, por exemplo, Cristo conta a parábola do homem que faz as contas para ver se tem dinheiro suficiente para construir uma torre. Em outras palavras, Jesus, um judeu, falando de dinheiro para outros judeus. Dá para imaginar os sorrisos cúmplices e as cotoveladas na platéia, as provocações do Mestre por meio de gestos, pausas, sorrisos, inflexões de voz… tudo isso escapa à fria narrativa evangélica. Precisaria estar lá para captar as sutilezas do maior dos oradores.
Ai, ai… infelizmente, nascemos no tempo errado e no país errado.
A solução é rir para não chorar – que, aliás, é a especialidade do brasileiro.
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