Viver é muito perigoso, escreveu Guimarães Rosa. Assistir tv é mais perigoso ainda.

A mídia de massa deixou pra trás a sua função de informação e virou um agente de transformação social. A tv, particularmente, devido à força da imagem em movimento, é muito mais perigosa do que o rádio ou a imprensa escrita. Evidentemente, nem todos os profissionais da comunicação encarnam esse espírito revolucionário. Ainda há heróis resistindo bravamente, como por exemplo Augusto Nunes e Felipe Moura Brasil, fora uma multidão incógnita que precisa trabalhar para viver. Jogá-los todos no mesmo saco seria uma injustiça, como injustiça seria condenar todos os engenheiros só porque as empreiteiras estão envolvidas no Petrolão.

Assistir tv se tornou um misto de análise clínica com garimpo. Análise clínica para investigar o que é verdade, o que é mentira e o que é manipulação. Garimpo para descobrir alguma coisa de valor na avalanche de informações sucessivas cujo ritmo é propositadamente violento para entorpecer a mente de qualquer pessoa normal. Dentre as inúmeras atrações do circo de horrores que virou a tv brasileira, o Jornal da Cultura é particularmente interessante pelo formato.

Um apresentador e dois comentaristas. A grande sacada foi dar um formato de opinião e análise no lugar da fria apresentação da notícia seca. Comenta-se de tudo: futebol, energia atômica, crise no Oriente Médio, os motis da Liberdade… Sem cerimônia, os especialistas em tudo passam de um tema a outro pontificando sobre os mais díspares assuntos. É um verdadeiro desperdício usar esses gênios num jornal de baixa audiência. Muito melhor aproveitados seriam eles numa função mais importante – por exemplo, na Mentira, digo, no Jornal Nacional, quem sabe?

No episódio de ontem, uma das comentaristas – se não me engano, uma professora, cujo nome esqueci e não pretendo lembrar (obrigado, Olavo) – analisava a candidatura de Trump sob, claro, a ótica mainstream que cospe marimbondo em cima do homem. A certa altura, comentando a mensagem de um telespectador de que o ziliardário americano seria a esperança do Ocidente, ela disse que o termo Ocidente era uma construção.

Essa foi demais! O Ocidente é uma construção! A Masculinidade é uma construção! Até o Viaduto do Chá é uma construção!

Pilatos moderna, a comentarista disse muito mais do que queria dizer.

Sim, nobre professora. O Ocidente realmente é uma construção. O seu Construtor foi Nosso Senhor Jesus Cristo, sábio pedreiro que edificou sobre a rocha do Judaísmo. Elevou a Lei e com ela as colunas do nosso mundo, criando a ciência que permite a transmissão de tv na qual a senhora opina, criando as universidades onde a senhora leciona, criando a liberdade pessoal que permite que a senhora se manifeste até mesmo contra Ele. Mais ainda: elevando a figura feminina – por meio de Inês e Maria, da samaritana e da mulher adúltera (pasme! um relato da misericórdia e do perdão divinos tão extraordinário que só aparece um Evangelho, e mesmo assim como que colocado por mãos de terceiros) – a um patamar jamais imaginado por qualquer uma das civilizações humanas.

Sem querer, a comentarista disse uma grande verdade, lembrando que Deus escreve reto por linhas tortas. Quanto mais torta a linha, mais certo escreve Deus, como é o caso do Brasil de hoje.

Aliás, será o Brasil uma construção?

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