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Yamato, um japonesinho de seis anos de idade, foi deixado de castigo na beira da estrada por mau comportamento – havia jogado pedras em pessoas e bichos. Instantes depois, quando o pai voltou para pegá-lo, Yamato havia desaparecido. Foi encontrado seis dias depois num abrigo abandonado do exército, a 10 quilômetros do local onde fôra deixado. Sobreviveu sem comida, apenas bebendo água.

Blog: Como você explica a capacidade de resistência desse menino?

Corisco: As raízes da sobrevivência estão na disciplina. Ele aprendeu isso com a família. O próprio episódio – um castigo dos pais – já revela a importância da disciplina familiar. No Brasil, em vez da família, as pessoas procuram os conselheiros mais esdrúxulos: pais de santo, psicólogos e todo tipo de salvador da pátria. A disciplina se aprende nas coisas mais simples do dia a dia: fazer a cama, amarrar o sapato, limpar o banheiro, ao comer, no respeito com os mais velhos, no respeito com os mais novos. Tudo isso é negligenciado no Brasil.

Blog: As principais artes marciais vêm do Japão. Há alguma relação entre esta tradição e o episódio do menino?

Corisco: Tem tudo a ver. O objetivo da arte marcial é a sobrevivência. Respeitar e aceitar a situação, saber o que é possível e o que não é possível, ter paciência para agir no momento certo, ter persistência e não se desesperar, ter controle emocional – tudo isso faz parte das artes marciais e pode ser encontrado na vida do menininho. Arte marcial significa coragem. Mas o que eu mais vejo no Brasil é medo: medo da vida, medo de fazer as coisas e medo das fases da vida. Isso leva ao bom-mocismo, ao politicamente correto, ao conforto, à necessidade de novidades – “eu preciso viajar” – e à afobação.

Blog: O que a família brasileira pode aprender com o episódio?

Corisco: Que disciplina e sobrevivência andam junto. Aqui não há disciplina, mas “jeitinho”. Quando, na escola, um menino enfrenta alguma dificuldade, ele sabe que alguém vai dar um jeito de resolver o problema por ele: vão arranjar desde aula de reforço até macumbeiro. Nos Jardins, em São Paulo, você pode ver propaganda de todo tipo de feitiçaria: tarô, vidente, amarração, mãe de santo, caboclo, cigana…

Blog: Muitos pais enfrentam o mesmo tipo de problema da família japonesa: têm filhos incontroláveis, cheios de energia.

Corisco: Isso não é ruim. A energia tem que ser canalizada. Uma arte marcial pode ajudar. (NE: em entrevista anterior, Corisco dá os critérios para escolher um bom professor). Muito pior é criança sem energia, sonsa. Aí não tem o que canalizar.

Blog: Apesar de ter avançado em muitos países asiáticos – e em muitos outros ao redor do mundo – o comunismo não pega no Japão. Por quê?

Corisco: Por causa da cultura de trabalho do povo japonês. É um trabalho caprichoso, detalhado, bem acabado – o kimono japonês é o melhor do mundo. O comunismo vive do trabalho dos outros, o que é inaceitável no Japão. Comunismo é coisa de vagabundo.

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