Robert Barron

Artigo publicado em 10 de novembro de 2015 no site World On Fire

René Girard, um dos mais influentes filósofos católicos do mundo, faleceu na semana passada, aos 91 anos de idade. Apesar de ter nascido em Avignon e ter sido membro da renomada Academie Francaise, Girard construiu a sua reputação acadêmica nos Estados Unidos como professor da Indiana University, Johns Hopkins University e Stanford University.

Há muitos pensadores que despertam ideias e propostas intrigantes e há uns poucos que conseguem sacudir o mundo. Girard pertencia ao segundo grupo. Em livros e artigos escritos ao longo de décadas, ele propôs uma teoria social de extraordinário poder explicativo. Buscando inspiração em alguns dos maiores gênios literários do Ocidente – Dostoiévsky, Shakespeare, Proust, dentre outros – Girard entendeu que o desejo é, ao mesmo tempo, mimético e triangular. Em outras palavras, nós raramente desejamos os objetos diretamente; em vez disso, os desejamos porque outros os desejam: ao imitarmos (mimesis) o desejo do outro, estabelecemos uma triangulação entre o eu, o outro e o objeto. Se isso parece muito vago, pense no modo como praticamente todas as propagandas funcionam: eu desejo o tênis não pelo seu valor intrínseco mas porque a maior estrela do futebol o deseja. Entretanto, o desejo mimético conduz, quase inevitavelmente, ao conflito. Se você deseja ver essa dinâmica, observe o que acontece quando a criancinha A imita o desejo da criancinha B pelo mesmo brinquedo ou quando o ditador A imita o desejo do ditador B pela mesma rota de acesso ao mar.

A tensão que surge do desejo mimético está relacionada com o que Girard chamou de mecanismo do bode expiatório. Uma sociedade, grande ou pequena, em conflito se unifica por meio de um consenso, jogando a culpa em um indivíduo ou em um grupo supostamente responsável pelo conflito. Por exemplo, um grupo de pessoas em um bate-papo descontraído conversará de modo anódino durante algum tempo, mas logo começarão a fofocar e encontrarão, normalmente, uma camaradagem real no processo. De acordo com Girard, o que eles estão fazendo é descarregar a tensão da sua rivalidade mimética em uma terceira pessoa. A mesma dinâmica prevalece entre intelectuais. Quando eu estava fazendo a minha pós-graduação, ouvi a decididamente girardiana observação: “o único ponto em que dois acadêmicos concordam é sobre a pobreza do trabalho de um terceiro acadêmico!” Hitler foi um dos mais astutos manipuladores do mecanismo do bode expiatório. Ele uniu a profundamente dividida nação alemã da década de 1930 justamente fazendo do povo judeu o bode expiatório da desgraça econômica, política e cultural do país. Assista a um vídeo de um comício de Nuremberg dos meados da década de 1930 para ver a teoria girardiana em pleno funcionamento.

Precisamente porque produz um tipo de paz – embora falsa e instável – esse mecanismo tem sido acatado pelas grandes mitologias e religiões do mundo e interpretado como algo para o qual Deus ou os deuses sorriem. Talvez o aspecto mais engenhoso da teoria de Girard seja a identificação dessa tendência. Nos mitos fundadores da maior parte das sociedades, encontramos algum ato de violência primal que realmente estabiliza a ordem da comunidade e, nos rituais dessas sociedades, descobrimos uma atuação repetida do mecanismo do bode expiatório original. Para conhecer uma apresentação literária dessa ritualização de violência criadora de sociedades, basta ler o conto “The Lottery”, obra-prima de Shirley Jackson.

Quando Girard examinou seriamente as Escrituras cristãs pela primeira vez, percebeu que as principais características dessa teoria estavam colocadas. O que ele encontrou o deixou atônito e mudou a sua vida. Ele descobriu que a Bíblia sabia tudo sobre o desejo mimético e sobre a violência do mecanismo do bode expiatório mas ela também continha algo completamente novo, a saber, a dessacralização do processo que é venerado em todos os mitos e religiões do mundo. A crucifixão de Jesus é um exemplo clássico do padrão antigo. Está totalmente de acordo com a teoria girardiana o fato de Caifás, o líder religioso da época, ter podido dizer aos seus colegas “Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?” Em qualquer outro contexto religioso, esse tipo de racionalização seria valorizado. Mas na ressurreição de Jesus dos mortos, essa verdade chocante é revelada: Deus não está no lado dos acusadores mas sim do lado da vítima inocente. O Deus verdadeiro na realidade não sanciona uma comunidade criada por meio da violência; antes, sanciona o que Jesus chamou o Reino de Deus, uma sociedade fundamentada no perdão, amor e identificação com a vítima. Uma vez identificado esse padrão, Girard o encontrou em toda parte nos Evangelhos e na literatura cristã. Para um exemplo particularmente claro do processo de desvelamento, observe com atenção o episódio da mulher adúltera.

Na segunda metade do século XX, os acadêmicos tendiam a caracterizar o Cristianismo – se pelo menos o estivessem levando a sério – como uma repetição a mais da mítica história que pode ser encontrada em praticamente todas as culturas. Da Epopeia de Gilgamesh a Star Wars, o “monomito” – para usar a fórmula de Joseph Campbell – é contado repetidamente. O que Girard viu foi o que essa gasta teoria tinha precisamente de errado. De fato, o Cristianismo é a revelação (o desvelamento) do que os mitos desejam encobrir; é a desconstrução do monomito, não a sua reiteração – e esta é exatamente a razão pela qual tantos acadêmicos querem domesticar e minar o Cristianismo.

A recuperação do Cristianismo como revelação, como um desmascaramento do que todas as outras religiões dizem, é a contribuição permanente e instigante de René Girard.

*

Robert Barron é Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Los Angeles.

Tradução: Ricardo R Hashimoto

Anúncios