Nos últimos quinze anos, a Rússia pós-soviética tem se transformado de modo positivo e inédito. (NT: artigo escrito em 2005) Não estamos mais enfrentando um país perigoso. Mas ainda estamos lidando com um tipo de samoderzhaviye, tradicional forma russa de autocracia cuja origem remonta ao século XVI de Ivan, o Terrível, no qual um senhor feudal controlava o país secretamente por meio da sua polícia política pessoal.

Poucos meses atrás, o sempre otimista presidente Bush fez a seguinte afirmação sobre Vladimir Putin à TV russa: “Somos amigos, e isso é importante”. [1] Diferentemente do seu antecessor, Boris Yeltsin, Putin realmente sempre é sóbrio e amigável. Mas Stalin também era assim. De acordo com o general Ivan Agayants, da KGB, o cérebro por trás da Conferência de Teerã de 1943 e um dos mestres da minha outra vida, Stalin mudou o seu modo de ser para enfeitiçar Franklin D. Roosevel e gritou de alegria quando o presidente americano o chamou de Tio Zé. “O aleijado é meu”, teria exultado Stalin.

Quando você analisa a fundo percebe que a magia de Putin provém da sua fidelidade à tradição dos governantes russos e soviéticos de manter a vida em sigilo e só começar a ficar conhecido após a morte.

Em março de 1953, enquanto tentava ficar sóbrio em uma sauna ardente, Stalin sofreu o seu ataque fatal. Poucos hoje são capazes de admitir que sempre o haviam glorificarado, assim como não se encontrou nenhum seguidor do nazismo na Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial. Em 1953, entretanto, milhões de pessoas choraram quando Stalin foi enterrado. Eu mesmo chorei. Sirenes soaram, sinos dobraram, os carros tocaram as buzinas e o trabalho parou em uma terça parte do mundo. Moscou havia muito fizera da manipulação dos símbolos uma arte, mas naquele dia se superou. Sentimos o peso da história sobre os nossos ombros, como se toda uma era caísse no esquecimento junto com o homem cujo nome havia sido sinônimo do Kremlin por quase três décadas. Levou apenas três anos, entretanto, para Stalin ser denunciado como um odioso carniceiro responsável pelo maior genocídio da história contemporânea.

Hoje podemos ver de relance a esposa de Putin e ouvir falar do amor dele pelo caratê em suas aparições ocasionais auto-controladas, mas de uma forma geral sabemos menos ainda sobre ele do que sabíamos sobre Stalin no momento da sua morte. Putin parece ainda menos tridimensional do que os caricaturais sucessores de Stalin. Por que Putin seria tão reservado sobre si mesmo na atual era da internet? Por um motivo: ele passou a maior parte da vida como um espião e tem a ocultação no sangue – não se esperava que alguém soubesse o que ele fazia, assim como a minha própria filha não sabia nada sobre o meu trabalho real quando eu era chefe da espionagem romena.

Além disso, Putin não é um “ideólogo”, cujo trabalho e discursos possam ser estruturados e analisados. Ele não é criador mas criatura. É um produto da KGB, não um Lênin construtor da KGB. É um produto do anti-americanismo do Kremlin, não um Stalin gerador do anti-americanismo. É também um produto da proliferação nuclear e do terrorismo anti-americano, oriundos do Kremlin, não um Khruschev autor de ambos.

Como general comunista, eu me encontrei várias vezes com Nikita Khrushchev – tanto sóbrio como bêbado – mas até hoje estou tentando atinar quando ele falava a verdade e quando estava mentindo. Putin dá continuidade a essa tradição. Ele foi o primeiro líder estrangeiro a expressar pesar ao presidente Bush pela tragédia de 11 de setembro [2] e a prometer ajuda estratégica e serviço de inteligência na guerra americana contra o terrorismo. Isso levou a um aquecimento das relações americanas com o Kremlin e à admissão honorária da Rússia como parceiro júnior na OTAN. Outrora formada para conter a expansão soviética, hoje os dois antigos inimigos estão “juntos como parceiros, superando 50 anos de divisão e uma década de incerteza”, disse o presidente Bush. [3]

Pouquíssimos meses  depois, Putin mudou a direção do seu país de volta para o lado dos tradicionais clientes da União Soviética – exatamente para o lado dos três governos terroristas apontados pelo presidente Bush como o “Eixo do Mal”. Em março de 2002, Putin começou a ajudar o governo do Irã a desenvolver o míssil Shahab-4, capaz de transportar ogivas nucleares e armas químicas. [4] Em agosto de 2002, concluiu um acordo comercial de 40 bilhões de dólares com Saddam Hussein no Iraque. Em seguida, enquanto os Estados Unidos se preparavam para chorar as vítimas do ataque terrorista do ano anterior, desenrolou o tapete de boas vindas em Moscou para o desprezível ditador da Coréia do Norte, Kim Jong II, com grandes honrarias. [5]

É difícil dizer qual é o Putin real, mas os russos parecem estar enfeitiçados com ele exatamente por essa razão. Eles amam enganação bizantina. Gerações de russos se auto enganaram sobre o estado glorioso do seu país, e Putin os faz sentirem-se talentosos novamente. Eles o chamam de “Eminência Parda” pela sua perícia, estilo Vaticano, em intrigas de bastidores. Eles admiram os seus frios olhos azuis como um indicativo de homem de verdade, tipo silencioso, forte, cujas poucas palavras são escolhidas com grande cuidado.

*   *   *

É difícil para qualquer oficial de inteligência comunista se aculturar à democracia. Em 1978, quando recebi asilo político concedido pelo presidente Carter, eu mesmo era um Putin romeno, e ainda às vezes me sinto um peixe fora d’água. Porém, eu tive muitas vantagens sobre um homem como Putin. O meu pai passou a vida trabalhando para a filial da General Motors na Romênia e transmitiu para mim o seu amor pelos Estados Unidos.  Rompi com o comunismo em 1978, quando ele ainda estava em alta. E até hoje, após 23 anos vivendo no país mais livre do mundo, ainda estou aprendendo o que é democracia. Putin, por outro lado, não é ocidental, e a sua experiência com democracia é nula. Ele serviu o comunismo até o seu último suspiro enquanto trabalhava para a KGB e ele está ainda rodeado por oficiais dela.

A máquina de relações públicas do Kremlin elogiou em demasia um Putin encantadoramente europeanizado, apesar da sua única experiência estrangeira ter sido na Alemanha Oriental, separada da Europa real naqueles anos pelo Muro de Berlin e por outras defesas de arame farpado. Este retrato remete às predileções de inclinação supostamente ocidental da nobreza russa czarista, falando francês e bebendo as águas em Baden-Baden na Alemanha Ocidental enquanto, por outro lado, se apinhava em uma pequena sociedade apertada ao redor da igreja Ortodoxa Russa.

Em 1999, para ver onde Putin havia passado os seus anos europeanizantes, visitei os restos da Soviet-German House of Friendship (literalmente, Casa da Amizade Soviética-Alemã), aquartelada em Lepzig e Dresden, a qual Putin havia comandado até 1988.  Na Gauck Commission – uma agência alemã de pesquisa dos arquivos da Stasi – descobri que aquela House of Friendship era um front da KGB para espionagem contra os Estados Unidos e que na verdade os seus oficiais disfarçados trabalharam nos quartéis-generais da Stasi – uma das mais criminosas organizações da policia política comunista. O insípido escritório de Putin se assemelhava aos dos oficiais de nível médio que costumavam trabalhar para mim nos postos avançados regionais mais remotos da Securitate romena.

Após Putin ter prestado juramento como presidente da Rússia, Moscou insinuou que ele havia tido um trabalho importante na Alemanha Oriental e fôra condecorado pelo governo daquele país. De acordo com a Gauck Commission e com a revista Der Spiegel, entretanto, Putin recebeu apenas uma rotineira medalha de bronze da Stasi alemã oriental como um “representante típico de agente de segunda categoria.” [6]

Lá, nos gélidos e ameaçadores quartéis-generais da antiga Stasi em Leipzig e Dresden, fui incapaz de detectar quaisquer sementes de democracia que pudessem ter ajudado a transformar o oficial Putin da KGB em um generoso democrata. Ainda assim, a propaganda do Kremlin sugere ininterruptamente que a experiência de Putin foi a de um moderno Pedro, o Grande, em viagem pelas salas de visitas e salões de baile da sociedade ocidental.

Boris Yeltsin passou a maior parte da vida como ativista de partido, galgando todos os postos até o Politburo, mas rompeu com o passado quando o comunismo veio abaixo. As biografias a seu respeito transformam-no principalmente em um engenheiro mais do que um político, descrevendo detalhadamente como ele “dominou doze habilidades de trabalhador de construção (pedreiro, carpinteiro, motorista, vidraceiro, gesseiro etc.) em uma façanha ímpar.” [7]

Putin se tornou oficial da KGB aos 17 anos de idade e não teve outro treinamento ou experiência. Ele fala abertamente sobre os seus anos na KGB e sobre o seu amor por ela, o qual ele diz ter herdado do seu avô, outrora cozinheiro em uma das dachas de Stalin [8] e do seu pai, que tinha “laços” com a KGB. Ele pede para a nação entender que a KGB trabalhou “no interesse do estado”. Ele pede paciência pois “90 por cento” do trabalho de inteligência da KGB foi coletada com a colaboração de cidadãos comuns. [9] Tenta reconstruir a confiança do país nos velhos símbolos e instituições soviéticas, os únicos jamais conhecidos por ele. A franqueza de Putin tem sido desarmante – mas suspeita também.

Yeltsin se distanciou da União Soviética, mas Putin tem revertido este processo. Por ordem dele, a estátua de Andropov foi reinstalada em Lubyanka e o seu escritório foi transformado em um santuário. Realmente, Andropov é o único outro oficial da KGB já entronado no Kremlin. (Seu retrato havia sido removido após o golpe de 1991.)

No aniversário da sua chegada ao poder, Putin também ordenou que o hino nacional soviético, banido em 1990, fôsse ressuscitado com novos versos do letrista de Stalin e Khrushchev, Sergey Mikhalkov, hoje com 87 anos de idade. Mikhalkov deixa claro que ainda admira Stalin e despreza Aleksandr Solzhenitsyn e Boris Pasternak. A nostalgia pelos velhos tempos soviéticos estava oficialmente de volta em grande estilo. Yelena Bonner, viúva do ganhador do prêmio Nobel da Paz Andrey Sakharov, chamou o episódio de “profanação da história”. Putin, polidamente, discordou dizendo “Superamos as diferenças entre passado e presente”.

Poucos dias depois, em um artigo de 14 páginas intitulado “A Rússia no Limiar de um Novo Milênio”, Putin definiu o novo futuro político da Rússia: “O estado tem que estar onde for necessário e na medida em que for necessário; a liberdade tem que estar onde for solicitada e na medida em que for solicitada”. No mesmo artigo, ele rotulou o esforço checheno de independência como “terrorismo” e prometeu erradicá-lo: “Vamos pegá-los onde estiverem – se encontrarmos terroristas sentados no banheiro, então vamos urinar neles. O assunto está encerrado.” [10]

Putin tem sonhos imperialistas? Desde Pedro, o Grande, todos os czares russos têm estado obcecados por uma rota para o Novo Mundo. Putin estaria planejando a construção de um túnel de 60 milhas entre a Rússia e os EUA sob o Estreito de Bering partindo de Chukotka oriental em direção ao Alasca ocidental, ao custo de cerca de 55 bilhões de dólares e prazo de construção de 20 anos. O Banco Mundial talvez até financie a obra, disse Viktor Razbegin, diretor do Center for Regional Transport Projects de Moscou.

Putin também está ocupado restaurando um palácio czarista em São Petersburgo como segunda residência, ao custo de 35 milhões de dólares, assim como o lindo Palácio Barroco do século XVIII localizado perto dos palácios de Peterhof no Golfo da Finlândia para servir como resort pessoal à beira-mar. Outros 30 milhões de dólares estão sendo gastos no embelezamento do “Air Force One” de Putin, um Ilyushin 96.

No ano de 2002, a Rússia estava produzindo em massa retratos e bustos oficiais de Putin. Este toque stalinista, disse Putin, é apenas um simbolismo de estado, como a bandeira ou o hino nacional. Ele acrescentou que ficaria encantado se os retratos ou bustos permanecessem nas mesas e paredes após o seu mandato. Os russos terão de esperar para ver se haverá de fato um “após” o mandato de Putin.

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Durante os velhos tempos soviéticos, o Ocidente inventou a Kremlinologia, uma disciplina para tentar decodificar os acontecimentos por trás do muro de segredo do Kremlin através, por exemplo, da comparação das fotos anuais da parada do Dia do Trabalho para ver qual o membro do Politburo ficava mais perto do ditador. Hoje temos Putinologistas, como o professor Stephen White da Universidade de Glasgow, professor Michael McFaul da Universidade de Stanford, e John Dunlop da Hoover Institution. Eles se esforçam com as escassas informações disponíveis, mas é quase impossível para um outsider colocar-se na posição de um homem cuja carreira decorreu na escuridão da espionagem soviética.

Na fotografia oficial de 2000, três homens estavam imediatamente atrás de Putin durante o seu juramento como presidente da Rússia. Todos eram oriundos da KGB: Sergey Ivanov, hoje chefe do Conselho de Segurança do Kremlin; Nikolay Patrushev, chefe da atual polícia política, a FSB [11]; e, com destaque, Viktor Cherkesov, ex-chefe da infame Directorate V da KGB, encarregada de reprimir as dissidências internas, e hoje o primeiro diretor-representante da FSB; não demoraria muito para ele se tornar um membro do governo federal. [12] Logo em seguida, um ensaio publicado por um porta-voz da FSB, Yevgeny Lukin, jogou toda a responsabilidade pelos assassinatos em massa cometidos pela KGB nas costas dos judeus trabalhando dentro dela. [13]

Poucos dias depois, Putin dividiu a Rússia em sete “super” distritos, cada um chefiado por um “representante presidencial” [14] e deu esses novos postos a ex-oficiais da KGB. [15] Em uma breve entrevista com Ted Koppel do programa Nightline da ABC News, Putin alegou ter trazido oficiais da KGB para o Kremlin porque queria extirpar a corrupção. “Não tem nada a ver com ideologia. Trata-se apenas de qualificação profissional e relacionamento pessoal.” [16]

Na realidade, preencher as mais importantes posições governamentais com oficiais de inteligência disfarçados é outra tradição russa. O czarista Okhrana plantou os seus agentes disfarçados em todo lugar: nos escritórios dos governos central e local, nos partidos políticos, sindicatos, igrejas e jornais. Até 1913, o próprio Pravda era editado por um deles, Roman Malinovsky, depois promovido a representante de Lenin para a Rússia e a presidente da facção Bolchevique na Duma.

Yuri Andropov sovietizou esse conceito tradicionalmente russo. Todo o corpo diplomático, comércio exterior, equipe econômica e até mesmo religiosa do bloco soviético trabalhando com o Ocidente deviam ser compostos por oficiais de inteligência disfarçados, ele me disse em fevereiro de 1972. “Isso nos ajudará a educar os burocratas do governo para desprezarem os Estados Unidos como os oficiais de KGB desprezam.”

Em janeiro de 1974, durante um encontro com funcionários do sistema de comércio exterior da Romênia, o primeiro-ministro, Ion Gheorghe Maurer, sussurrou ao meu ouvido: “Você sabe o que aconteceria se você passasse merda em cada um dos seus oficiais disfarçados neste prédio?” Ele não esperou a resposta. “Todo este maldito lugar ficaria fedendo a merda do porão ao sótão!” Uma imagem nada elegante mas significativa.

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A Alemanha jamais teria se tornado um país democrático se os oficiais da Gestapo tivessem sido mantidos no governo e nos serviços secretos. Na Rússia, entretanto, cerca de 50% dos altos cargos de governo estão hoje ocupados pelos antigos camaradas de Putin na KGB [17], virulentamente empenhados contra o que a KGB tem por meio século definido como o “maior inimigo” do país: os Estados Unidos.

Em abril de 2000, apenas sete dias após Putin ter sido eleito presidente da Rússia com maioria esmagadora, o empresário americano Edmund Pope foi preso pela FSB sob acusação de espionagem. O seu julgamento se transformou numa farsa. O professor Anatoly Babkin, principal testemunha da FSB contra Pope, retirou o seu testemunho e disse ter sido forçado a assiná-lo. A FSB ameaçou colocar Babkin na cadeia, de acordo com fitas transmitidas na Rússia, mas mesmo assim ele revogou a falsa evidência. O instituto de pesquisa russo onde Babkin trabalhava forneceu à corte documentos mostrando que todo o material técnico fornecido a Pope não era confidencial e havia sido vendido legalmente a ele. Apesar disso, Pope foi considerado culpado e recebeu uma pena de 20 anos de prisão com base em um veredito escrito em apenas duas horas e meia. Em seguida, no dia 12 de dezembro de 2000, Pope foi magnanimamente perdoado pelo presidente Putin, [18] assim como outros americamos ridiculamente acusados pela KGB haviam sido perdoados pelos predecessores comunistas de Putin.

Os Estados Unidos haviam novamente sido retratados para parecer um inimigo da Rússia.

De acordo com um comunicado de imprensa do governo russo de março de 2001, uma série de julgamentos forjados contra os Estados Unidos, com acusações de espionagem e a portas fechadas, estava em andamento em Moscou com motivações descritas no Ocidente como “tão sem provas e tão exageradas em suas suposições que pelo menos três deles haviam sido rejeitados mesmo pelas cortes russas”. [19] Estes reveses, entretanto, não desencorajaram a FSB de Putin, a qual, em cada instância, respondeu ao veredito de inocente reabrindo o caso contra o alvo. Em março de 2001, por exemplo, Vladimir Moiseyev, diplomata russo de carreira, estava no terceiro julgamento pela mesma acusação – espionagem para os EUA e para o seu principal aliado na Ásia, a Coréia do Sul. O documento “incriminatório” apresentado como “evidência” pela FSB acabou se revelando uma cópia de um discurso de Moiseyev, especialista em Coréia do Sul, pronunciado publicamente. Apesar disso, desde julho de 1998 ele está preso pela FSB, cujo chefe, Vladimir Putin, declarou publicamente que o caso “estava comprovado além da dúvida”. [20]

Em 2003, Putin criou um novo eixo anti-americano – Moscou-Berlim-Paris – para contrapor a intenção de Washington de libertar o Iraque da tirania de Saddam Hussein. Não por acaso,  a conferência de cúpula de São Petersburgo no Iraque, à qual compareceram os líderes desse novo eixo, coincidiu com as imensas demonstrações de anti-americanismo de 12 de abril de 2003 quando milhões de europeus tomaram as ruas para retratar os Estados Unidos como um país governado por fanáticos pró-guerra. O World Peace Council (WPC), criado pela União Soviética – cujo presidente honorário ainda era o mesmo ativo da KGB, Romesh Chandra, chefe desse aparelho durante os meus anos como general comunista – reconheceu que o WPC havia organizado essas mobilizações.

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Há 15 anos a União Soviética “colapsou” e a prova é essa. Putin não tem interesse em democracia. Ele está consolidando o poder autoritário central como todos os demais czares antes dele – de Ivan, o Terrível a Lênin e seus sucessores. Alguns podem considerar isso um problema interno russo. Mas Putin também está tentando jogar os velhos aliados soviéticos contra os Estados Unidos novamente e isso merece a nossa atenção.

Considere que os antigos terroristas financiados pela KGB estão no momento fornecendo apoio ideológico para uma nova ofensiva anti-americana. Antonio Negri, professor na Universidade de Pádua, o cérebro por trás das Brigadas Vermelhas italianas e que cumpriu pena pelo envolvimento no sequestro e assassinato do ex-primeiro-ministro Aldo Moro, recentemente co-autorou um virulento livro anti-americano intitulado Empire. [12] Nele, Negri justifica o terrorismo islâmico como uma ponta de lança da “revolução pós-moderna” contra “a nova ordem imperialista.” [22] Segundo Negri, a globalização americana – o novo “Império” – está desintegrando os estados-nação e criando um enorme desemprego. Ele também afirma que o capitalismo não presta e deve acabar. Durante 27 anos da minha outra vida, estive envolvido no processo de criação de vários Negris e sei o quão facilmente eles lançam raízes entre os esquerdistas. Não admira o The New York Times ter se referido ao moderno Manifesto Comunista de Negri como “o inteligente livro quente do momento”. [23]

Considere que a velha esquerda financiada pela KGB na Europa e nos Estados Unidos também está sendo ressuscitada. Os esquerdistas estão novamente por aí espalhando as mesmas velhas obsessões, papagaiando os mesmos velhos slogans. Como um dos líderes da comunidade de inteligência do bloco soviético, também já fui responsável por encorajar o credo nesses mesmíssimos slogans – incluindo a acusação de que os presidentes americanos eram mentirosos e os seus soldados criminosos de guerra. Ouço novamente os ecos de todos os mesmos velhos versos na retórica da esquerda, especialmente nas insinuações conspiracionais de propagandistas de hoje como Michael Moore e netinhas dos membros do Partido Comunista americano que sustentam velhos esquerdistas e órgãos outrora explicitamente pró-comunistas como a revista The Nation.

Considere que na própria Rússia, a polícia secreta e o exército que lutaram a Guerra Fria foram mantidos nos seus postos, apenas com novas plaquetas nas portas. Considere também o quão insistentemente a natureza humana resiste à mudança.

*  *  *

A despeito da atitude dúbia de Putin em relação a nós, um novo mundo está surgindo como forte aliado dos Estados Unidos. Em 5 de fevereiro de 2002, oito países europeus assinaram um artigo na página de colunistas/comentaristas do Wall Street Journal apoiando o esforço do presidente Bush para erradicar o terrorismo por meio do aumento da liberdade em todo o mundo. Dez antigos países-satélite do bloco soviético juntaram-se a eles no dia seguinte. “Os nossos países entendem os perigos representados pelas tiranias e a responsabilidade especial das democracias em defender os seus valores” declararam os ministros das relações exteriores da Albânia, Bulgária, Croácia, Estônia, Letônia, Lituânia, Macedônia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia. Em 8 de março de 2004, os iraquianos adotaram a primeira constituição escrita por eles. Em 9 de outubro de 2004, o Afeganistão realizou a sua primeira eleição livre. O dia 9 de janeiro de 2005 registrou outro marco importante: os palestinos elegeram livremente o seu próprio presidente. O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, resumiu: “Toda vez que vejo uma bandeira dos Estados Unidos, vejo não apenas o símbolo de um país, mas um símbolo de democracia e liberdade.” [24]

As fronteiras russas se estendem do Polo Norte ao paralelo 35, englobando 12 mares, 270 mil lagos e 150 mil rios, e aquele imenso país não pode ser democratizado pelo mundo exterior. Mas também não pode ser deixado sozinho. Nas palavras do famoso sociólogo czarista, Petr Chaadayev, “contrariando todas as leis da comunidade humana, a Rússia só se move na direção da sua escravidão e na direção da escravidão dos povos vizinhos. Por isso, devia ser do interesse não apenas dos outros povos mas também do próprio interesse da Rússia que ela fôsse compelida a tomar um novo caminho.” [25]

Durante a Guerra Fria, gastamos trilhões para libertar a Rússia do comunismo. Agora, é hora de ajudá-la a se livrar também dos remanescentes da KGB, esse peculiar instrumento russo de poder que tem isolado os russos do mundo real e os tem deixado despreparados para lidar com as complexidades da sociedade moderna.

Em 1991, quando a União Soviética foi abolida, os russos odiavam qualquer coisa associada, nas suas mentes, ao capitalismo: livre iniciativa, tomada de decisões, trabalho duro, risco, desigualdade social. Depois, após um período de mudança drástica, eles gradualmente – e talvez até com gratidão – escorregaram de volta para a sua histórica forma de governo, a samoderzhaviye russa.

Agora, as barreiras erguidas pelos soviéticos por mais de 70 anos contra o resto do mundo, assim como entre os próprios russos, estão caindo lentamente. A propriedade está sendo institucionalizada e uma nova geração de russos parece pronta a assumir o risco do capitalismo. Devemos tentar conhecer esta geração e tentar ajudá-la a desenvolver uma nova identidade nacional.

Os Estados Unidos também estão melhor preparados para atacar esta enorme tarefa. O presidente Bush acredita fortemente que a “liberdade será o futuro de cada nação e de cada povo na terra” [26] e a sua secretária de estado provavelmente entende a Rússia melhor do que qualquer outro diplomata antes dela.

Não será fácil quebrar uma tradição de cinco séculos. Entretanto, o homem não teria aprendido a andar na lua se não tivesse estudado a sua real composição e a sua localização no universo.

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O general Ion Mihai Pacepa é o oficial de mais alta patente que desertou do Bloco Soviético. O seu livro mais recente, Disinformation, em co-autoria com o professor Ronald Rychlak, publicado pelo WND, deu origem a um filme, atualmente em produção em Hollywood.

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Notas:

[1] “Best Way to Fight Terrorism is to Spread Freedom, Bush Tells Russian TV,” BBC Monitoring Former Soviet Union, February 20, 2005, p.1

[2] “Putin offers sympathy and support f US,” Radio Free Europe Newsline, September 12, 2001, Internet edition.

[3] “NATO Welcomes Russia as Junior Partner,” The Associated Press, May 28, 2002, internet edition.

[4] William Safire, “Testing Putin on Iran, The New York Times, May 23, 2002, internet edition.

[5] Ben Shapiro, “Keep an eye on Russia,” Townhall.com, August 23, 2002.

[6] “Putin was expelled from West Germany for espionage: report,” AFP, Berlin, January 8, 2000, Internet edition, p. 2..

[7] “Boris Yeltsin: A biography of the former Russian President,” University of Indiana, Internet edition, dmiguise/Russian/bybio, p. 2.

[8] Bernard Gwertzman, “The K.G.B. Candidate,” The New York Times Book Review, May 5, 2000, p. 39.

[9] John Lloyd, “The Logic of Vladimir Putin,” The New York times Magazine, March 19, 2000, P. 65.

[10] “Putin rocked Russians with ruthlessness,” AFP, December 31, 1999, Internet edition, ruthlessness.html.

[11] Federalnaya Sluzhba Bezopasnosti v Rossiyskoy Federatsii (Federal Security Service of the Russian Federation).

[12] “The Return of the KGB,” Center for the Future of Russia, March 23, 2003, p. 1, published at http://www.future-of-russia.org/issue.kgb.html.

[13] “Anti-Semitism in Russia’s Regions 1900-2000,” Executive Summary, p. 5, Union of Councils for Jews in the Former Soviet Union, as published in http://www.fsumonitor.com/executivesummary.htm.

[14] “Putin strengthens Kremlin’s power,” BBC News Online, World:Europe, May 14, 2000, 01:53 GMT.

[15] David Hoffman, “Russian Security Service Revived under Putin,” The Washington Post, December 8, 2000, Internet edition, A40236-2000Dec, p. 2.

[16] Michael R. Gordon, “Putin, in a Rare Interview, Says He’ll Use Ex-K.G.B. Aides to Root Out Graft,” The New York Times, March 24, 2000, Internet edition, p. 2.

[17] Gary Kasparov, “KGB State,” The Wall Street Journal, September 18, 2003, found at http://online.wsj.com/article_print/0,,SB10638498253262300,00.html.

[18] “An American in Russia,” The Washington Times, editorial, December 18, 2000, Internet Edition, 20001218161413, p. 2.

[19] “Russia’s Spy Trials,” editorial, The Washington Post, March 14, 2001, p. 24.

[20] “Russia’s Spy Trials.”

[21] Michael Hardt and Antonio Negri, Empire (London: Harvard University Press, 2000).

[22] Hardt and Negri, p. 28.

[23] David Pryce-Jones, “Evil Empire, The Communist ‘hot, smart book of the moment,’” National Review Online, September 17, 2001

[24] “Berlusconi’s Moment,” The Weekly Standard, February 10, 2003, p. 3.

[25] “Original Quotes,” Alexander Palace Time Machines, April 5, 2005, p. 1

[26] Jennifer Lopez, “Bush Praises Georgians in Freedom Square,” MacNewsWorld,  May 10, 2005, as published on the net.

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Publicado no Front Page Magazine

Tradução: Ricardo R Hashimoto

 

 

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